Às vésperas de uma cúpula decisiva em Paris sobre o futuro da guerra na Ucrânia, o presidente Volodymyr Zelensky promoveu uma mudança estratégica no núcleo duro de seu governo, ao substituir o chefe do Serviço de Segurança do país (SBU) e anunciar a nomeação da ex-vice-primeira-ministra do Canadá, Chrystia Freeland, como assessora especial para o desenvolvimento econômico.
A reformulação ocorre em um momento de inflexão do conflito, que se aproxima de quatro anos sem perspectiva clara de desfecho militar, e reflete a tentativa de Zelenski de ajustar sua administração tanto para um cenário de negociação quanto para a continuidade de uma guerra de desgaste contra a Rússia.
A cúpula de Paris deve reunir líderes de cerca de 30 países aliados da Ucrânia, no grupo informal apelidado de “coalizão dos dispostos”.
O objetivo central é discutir garantias de segurança que impeçam Moscou de repetir a invasão, caso um cessar-fogo ou acordo de paz venha a ser assinado, um ponto sensível diante do histórico de violações russas a pactos anteriores, como os Acordos de Minsk.
Entre os temas mais delicados está a possibilidade de envio de tropas estrangeiras para território ucraniano ou regiões vizinhas, com mandato para supervisionar um eventual cessar-fogo.
O Kremlin já declarou que não aceitará a presença de forças de países da Otan na Ucrânia, o que reduz o espaço de manobra diplomática.
Mudança no comando da inteligência interna
No plano interno, Zelenski aceitou a renúncia do general Vasyl Maliuk, que chefiava o SBU, e nomeou interinamente Ievhen Khmara, ex-comandante de uma unidade especial da agência.
A troca ocorre após uma série de operações consideradas bem-sucedidas contra alvos russos, mas também em meio a pressões por maior coordenação entre inteligência, Forças Armadas e Presidência.
Analistas ouvidos por jornais europeus observam que a substituição não representa uma ruptura, mas um ajuste fino na cadeia de comando, com o objetivo de acelerar decisões em um contexto de guerra prolongada e recursos limitados.
Na semana passada, Zelenski já havia nomeado o chefe da inteligência militar, Kyrylo Budanov, como novo chefe de gabinete da Presidência, reforçando o peso do setor de segurança no centro do poder.
Economia e reconstrução entram no radar
A nomeação de Chrystia Freeland sinaliza uma tentativa de equilibrar a agenda militar com a econômica. De origem ucraniana e crítica contundente do presidente russo Vladimir Putin, Freeland tem trajetória ligada à negociação de grandes acordos comerciais e à articulação com Washington e Bruxelas.
A aposta de Kiev é que sua experiência ajude a atrair investimentos estrangeiros e estruturar projetos de reconstrução em parceria com Estados Unidos, União Europeia e organismos multilaterais, em um país cuja infraestrutura foi severamente danificada por bombardeios e ataques com drones.
A escolha, no entanto, não é isenta de controvérsia. Freeland teve uma relação tensa com o presidente dos EUA, Donald Trump, desde seu primeiro mandato, quando liderou as negociações do acordo comercial entre EUA, Canadá e México.
Trump já a descreveu publicamente como “difícil” e “tóxica”, o que pode complicar a interlocução em um momento em que Washington desempenha papel central nas conversas de paz.
Guerra segue intensa no campo de batalha
Enquanto a diplomacia avança lentamente, o conflito permanece ativo. Na madrugada de segunda-feira, um ataque russo com drones atingiu uma clínica privada em Kiev, matando um paciente e ferindo outras três pessoas, segundo autoridades locais.
O governo ucraniano afirmou que Moscou lançou mais de 160 drones e mísseis contra alvos civis e infraestrutura energética, agravando os apagões em pleno inverno.
Zelenski reconheceu que a principal vantagem da Rússia continua sendo sua superioridade numérica e capacidade de manter ataques em larga escala.
A resposta ucraniana, segundo ele, passa pelo uso intensivo de tecnologia, desenvolvimento acelerado de novos armamentos e táticas assimétricas.
Do lado russo, autoridades relataram novos ataques de drones ucranianos em regiões do oeste do país, incluindo instalações industriais e aeroportos, o que levou à suspensão temporária de voos em algumas cidades.
Impasse diplomático
Apesar de Zelenski afirmar que um esboço de acordo de paz mediado pelos Estados Unidos estaria “90% pronto”, os pontos restantes, sobretudo o status de territórios ocupados e as garantias de segurança, seguem como obstáculos centrais.
Moscou insiste que não aceitará um cessar-fogo sem um acordo amplo, enquanto Kiev teme que uma trégua mal estruturada apenas congele o conflito, permitindo à Rússia se rearmar.
A troca no comando da segurança e a ampliação do núcleo econômico do governo indicam que Zelenski se prepara para um período prolongado de incerteza, no qual a Ucrânia terá de negociar sem baixar a guarda e resistir sem perder o apoio político e financeiro do Ocidente.