Em março de 2024, o vinagre de maçã ficou em evidência. Um artigo publicado na BMJ Nutrition, Prevention & Health — uma revista científica respeitada — sugeria que o produto poderia ajudar na perda de peso. Bastou isso para que vídeos, manchetes e posts tratassem o vinagre como um aliado simples, barato e acessível contra a balança, reforçando uma narrativa que, vira e mexe, aparece por aí.
Mais de um ano depois, o enredo desmoronou. Os editores da revista anunciaram a retratação formal do estudo e retiraram o artigo do ar após uma investigação apontar inconsistências nos dados, como alocação inadequada dos participantes nos grupos testados, arredondamento dos dados e discrepâncias entre as medidas obtidas nas avaliações feitas com os voluntários.
Ainda assim, a história seguiu circulando. Nas redes sociais, médicos e nutricionistas — muitos deles influencers — continuam promovendo o consumo diário do produto, em jejum, puro ou diluído em água. Em alguns casos, a promessa está longe de ser básica: até dois quilos a menos em três ou quatro semanas, apenas com a adoção do ritual matinal.
“Por mais tentador que seja apresentar aos leitores um recurso aparentemente simples e útil para perda de peso, os resultados do estudo não se mostram confiáveis, e os profissionais não devem fazer mais referência a ele”, afirmou, em nota à imprensa, Helen Macdonald, coordenadora de ética e integridade de conteúdo do grupo BMJ.
Para a nutricionista Tarcila Campos, do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, há uma boa distância entre a popularidade da prática e o que a ciência de fato demonstra. “O vinagre de maçã não é um elixir de emagrecimento”, afirma. Segundo ela, até existem estudos que apontam uma perda de peso pequena e de curto prazo, mas os efeitos são modestos, inconsistentes e longe de justificar as promessas feitas nas redes.
O possível mecanismo, explica Campos, estaria mais relacionado à redução do pico de glicose após as refeições e, em algumas pessoas, a uma discreta — bem discreta mesmo — sensação de saciedade. Ainda assim, trata-se de um efeito bem pontual e que não substitui alimentação adequada, atividade física, sono de qualidade e acompanhamento profissional.
Enquanto isso, o consumo em forma de “shots” diários levanta outro alerta. “O uso do vinagre puro ou dependendo da forma que é diluído pode irritar o estômago, piorar refluxo, desgastar o esmalte dos dentes e até lesionar a mucosa da garganta”, diz a nutricionista.
Para ela, quando há algum espaço para o vinagre na rotina, ele deve ocupar o lugar de alimento, não de remédio: em saladas, molhos e preparações culinárias, dentro de um contexto alimentar equilibrado.
Como orientação final, Campos recomenda cautela diante de práticas populares de emagrecimento. “É importante olhar com atenção para o que a ciência realmente comprova por trás das promessas”, diz. Segundo a nutricionista, estratégias que funcionam de verdade costumam ser testadas em estudos bem feitos, repetidos por diferentes pesquisadores e mostram resultados pequenos, porém consistentes. Além disso, deixam claros tanto os possíveis benefícios quanto os limites e riscos envolvidos.
“Quando a promessa é grande demais, rápida demais ou simples demais, vale desconfiar”, resume. Segundo a nutricionista, cuidar da saúde exige uma abordagem mais ampla: estratégias que realmente funcionam fazem parte de um plano completo, levam em conta a rotina e as necessidades de cada pessoa e devem ser discutidas com profissionais de saúde. “Isso é ainda mais importante no caso de doenças crônicas, como obesidade e diabetes”, destaca Campos.