O governo venezuelano desencadeou uma ampla ofensiva repressiva após a captura do presidente Nicolás Maduro por forças especiais dos Estados Unidos, em uma operação relâmpago que redesenhou o tabuleiro político do país e aprofundou a instabilidade institucional.
Milícias paramilitares passaram a patrulhar bairros da capital, jornalistas foram detidos e um decreto de estado de emergência restringiu liberdades civis, em meio à tentativa do novo comando político de conter qualquer sinal de apoio à ação americana.
A repressão ocorre enquanto Delcy Rodríguez, ex-vice-presidente e figura central do chavismo, busca consolidar-se no poder após ser empossada como presidente interina.
Considerada uma das dirigentes mais próximas de Maduro, Rodríguez recebeu apoio imediato das Forças Armadas, num gesto interpretado por analistas como essencial para a sobrevivência do regime no curto prazo.
O ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López, declarou publicamente lealdade à nova presidente e afirmou que os militares permanecerão “ao lado do governo diante das turbulências geopolíticas”.
O pronunciamento reforçou o papel das Forças Armadas como fiadoras do poder político, num país em que a separação entre esfera civil e militar é cada vez mais tênue.
Milícias e cerco à informação
Nas ruas de Caracas, grupos armados conhecidos como colectivos, milícias alinhadas ao chavismo e historicamente utilizadas para reprimir protestos, montaram bloqueios e passaram a controlar áreas estratégicas da cidade, sobretudo em regiões tradicionalmente associadas à oposição.
O governo proibiu manifestações públicas que façam referência ou apoio à operação americana.
Entidades de defesa da liberdade de imprensa relataram a detenção temporária de ao menos 14 jornalistas e trabalhadores da mídia, a maioria vinculada a veículos estrangeiros.
As abordagens ocorreram principalmente nas imediações da Assembleia Nacional, durante a cerimônia de posse de Rodríguez. Repórteres tiveram equipamentos confiscados e foram impedidos de registrar imagens ou realizar transmissões ao vivo.
Um decreto publicado no Diário Oficial autoriza a prisão de qualquer pessoa acusada de “promover, justificar ou apoiar” a ação dos Estados Unidos em território venezuelano.
O texto também permite restrições à circulação, apreensão de bens e suspensão do direito de reunião, medidas que, segundo juristas, extrapolam os limites previstos pela Constituição.
Reação internacional e alerta da ONU
O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos manifestou “profunda preocupação” com a escalada repressiva e alertou para o risco de violações sistemáticas.
Em nota, a ONU afirmou que o estado de emergência levanta questionamentos sobre o respeito às garantias fundamentais e pediu que eventuais responsabilizações ocorram por meio de processos legais justos e transparentes.
Organizações locais de direitos humanos relataram um aumento no número de abordagens arbitrárias, com agentes de segurança revistando celulares de cidadãos em busca de mensagens, fotos ou postagens que possam ser interpretadas como apoio à queda de Maduro.
Oposição vê risco de continuidade autoritária
A líder opositora María Corina Machado classificou a repressão como “alarmante” e afirmou que a transição política venezuelana corre o risco de se converter apenas numa troca de nomes dentro do mesmo sistema autoritário.
Em entrevistas à imprensa internacional, Machado descreveu Rodríguez como uma das principais articuladoras da repressão nos últimos anos e questionou sua legitimidade para liderar um processo de abertura democrática.
Rodríguez, por sua vez, recebeu cumprimentos imediatos de representantes diplomáticos da Rússia, da China e do Irã, países que vinham sustentando politicamente o governo Maduro e que agora observam com cautela os desdobramentos da presença direta dos EUA no país.
Clima de medo e ruas vazias
Nos bairros do leste de Caracas, reduto tradicional da oposição, o clima é de silêncio e apreensão. Ruas permanecem vazias, com comércio funcionando de forma irregular.
A captura de Maduro foi precedida por um confronto armado em uma base militar, segundo relatos de autoridades venezuelanas e de milicianos ligados ao regime.
Disparos também foram ouvidos nas proximidades do Palácio de Miraflores nos dias seguintes, embora o governo tenha minimizado os episódios, atribuindo-os a “incidentes com drones”.
Um país suspenso entre ruptura e continuidade
Analistas ouvidos por jornais como Financial Times, New York Times e El País avaliam que a Venezuela vive um momento de transição altamente instável, em que a remoção de Maduro não significou, até agora, uma ruptura real com o modelo autoritário instalado há mais de duas décadas.
A permanência das estruturas repressivas, o protagonismo militar e a repressão imediata a qualquer dissenso indicam que o país pode estar entrando em uma nova fase de endurecimento político, agora sob outra liderança, mas com métodos conhecidos.