Poucos acadêmicos ajudaram tanto a moldar o debate contemporâneo sobre petróleo, poder e autoritarismo quanto Michael L. Ross. Cientista político da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, Ross construiu sua reputação ao demonstrar, com dados e casos históricos, que a abundância de recursos naturais tende a corroer instituições, concentrar poder e favorecer regimes autoritários. Essa tese, conhecida como a “maldição do petróleo”, ganhou forma definitiva em seu livro de mesmo nome (The Oil Curse, em inglês), e hoje leitura obrigatória para quem busca entender por que países ricos em energia frequentemente falham em traduzir riqueza em democracia e prosperidade.
No centro de sua análise está um mecanismo simples e poderoso: quando o Estado controla grandes rendas petrolíferas, o governante passa a depender menos de impostos e, portanto, menos da sociedade. Com dinheiro abundante, torna-se possível comprar apoio político, cooptar elites e garantir a lealdade das Forças Armadas, esvaziando pressões por transparência e accountability. A Venezuela ilustra, para Ross, esse mecanismo com clareza quase didática. Três décadas atrás, o país era visto como um modelo de gestão responsável do setor, sustentado por tecnocratas e instituições relativamente sólidas. Esse arranjo começou a ruir com a ascensão de Hugo Chávez, foi acelerado pela disparada dos preços do petróleo no início dos anos 2000, que ampliou enormemente o poder de quem controlava a renda petrolífera, e encontrou um ambiente externo adverso. “Na América Latina, é extremamente difícil sustentar um governo de esquerda ou de inclinação à esquerda quando os Estados Unidos se posicionam contra”, observa Ross. Segundo ele, Washington esteve “quase certamente” envolvido em tentativas de desestabilização do governo Chávez, o que acabou enfraquecendo ainda mais os freios e contrapesos democráticos no país.
É justamente aí que a leitura de Ross lança uma luz incômoda sobre a operação militar dos Estados Unidos que resultou na captura de Nicolás Maduro. Se a história venezuelana mostra como a renda do petróleo concentra poder e enfraquece instituições, sobretudo quando combinada à pressão externa de Washington , a estratégia de Donald Trump parece repetir o padrão, não corrigi-lo. Em nenhum momento, observa Ross, o presidente americano fala em restaurar a democracia, reconstruir instituições ou fortalecer mecanismos de controle e representação política no país. A democracia simplesmente não aparece no discurso. O foco é outro: ampliar o acesso das empresas americanas ao petróleo venezuelano, redefinir alinhamentos geopolíticos e reafirmar a influência dos Estados Unidos na região. Para o cientista político, experiências como Iraque e Líbia mostram que intervenções guiadas por interesses energéticos dificilmente rompem a “maldição do petróleo”. Sem compromisso explícito com governança, instituições e bem-estar social, derrubar um líder tende apenas a redistribuir quem controla a renda, e não a libertar o país de seu ciclo de autoritarismo e instabilidade.
Por que países altamente dependentes do petróleo tendem, com tanta frequência, a se tornar regimes autoritários? Qual é a relação entre essas duas coisas? A forma mais simples de entender isso é que o petróleo concentra poder nas mãos do Estado e, sobretudo, do chefe de governo. Na maioria dos países, o petróleo é propriedade estatal. Quando essa riqueza se torna disponível, especialmente em momentos de alta nos preços, o presidente, primeiro-ministro ou monarca passa a concentrar um volume extraordinário de recursos financeiros e poder político. Isso cria uma enorme tentação de contornar pressões populares ou mecanismos democráticos. Com tanto dinheiro à disposição, torna-se relativamente fácil comprar a lealdade de setores estratégicos, como as Forças Armadas e outras elites de poder. É isso que observamos na maioria dos países ricos em petróleo, com apenas algumas exceções.
Na sua avaliação, por que a Venezuela fracassou no setor petrolífero? Quais foram os principais fatores? Trinta anos atrás, a Venezuela era vista como um modelo de gestão responsável do setor de petróleo. O país contava com tecnocratas e economistas altamente qualificados, comprometidos com o bem-estar de longo prazo da economia e da sociedade. Esse modelo começou a se desfazer por uma combinação de fatores. Um deles foi a ascensão de um líder populista, Hugo Chávez. Outro foi a forte alta dos preços do petróleo entre o fim dos anos 1990, quando Chávez foi eleito, e o início dos anos 2000, o que ampliou enormemente o poder de quem controlava o setor no país. Houve ainda um fator externo relevante: o governo Bush tinha forte oposição às políticas do governo chinês. Na América Latina, é extremamente difícil sustentar um governo de esquerda ou de inclinação à esquerda quando os Estados Unidos se posicionam contra. Os EUA estiveram, quase certamente, envolvidos em tentativas de desestabilização do governo Chávez, o que acabou enfraquecendo ainda mais os freios e contrapesos democráticos no país.
O senhor acredita que o envolvimento dos Estados Unidos no setor de petróleo da Venezuela poderia ajudar a romper a chamada “maldição do petróleo”, conceito que o senhor discute em seu livro? Não. Um aspecto que chama muito a atenção é que o governo Trump não fala, em momento algum, sobre restaurar a democracia na Venezuela. Não há interesse real em melhorar a qualidade do governo ou das instituições para a população venezuelana. O foco é simplesmente ampliar o acesso dos Estados Unidos à riqueza petrolífera do país, aumentar a parcela das rendas do petróleo que vai para empresas americanas e, muito provavelmente, alterar a política externa da Venezuela, especialmente sua relação com Cuba. Questões como governança, redução da corrupção, melhora do padrão de vida ou maior responsabilização do governo simplesmente não fazem parte da agenda. É muito difícil enxergar um caminho, a partir da situação atual, que leve a avanços institucionais, maior bem-estar ou melhoria da qualidade de vida dos venezuelanos. Esses temas estão completamente fora de consideração para o governo Trump.
Há paralelos possíveis entre a Venezuela e países como Iraque ou Líbia? Iraque e Líbia são comparações importantes. Em ambos os casos, os Estados Unidos derrubaram, ou participaram ativamente da derrubada, dos governos. O resultado foi anos de guerra civil e níveis extremos de violência, algo que ainda persiste na Líbia. A principal diferença é que, nesses dois países, os EUA não apenas removeram a liderança política, mas também destruíram o alto comando militar. O Estado foi derrotado militarmente, o que levou ao colapso completo das estruturas de poder e a um cenário de anarquia. Quando um governo é destruído sem que nada seja colocado em seu lugar, o vazio tende a ser preenchido pelo caos. No caso da Venezuela, a estratégia do governo Trump parece ser remover apenas o líder no topo, Nicolás Maduro, mantendo o restante do aparato estatal intacto, apostando que conseguirá forçar o restante do governo a mudar de rumo. Não está claro se isso funcionará. Por ora, o Estado ainda controla o país, o que evita um colapso imediato como o visto no Iraque ou na Líbia. O que virá a seguir é imprevisível. O governo Trump é extremamente difícil de antecipar.
O presidente Trump chegou a afirmar que empresas petrolíferas americanas investiriam na Venezuela antes mesmo de dialogar com elas. Como o senhor avalia esse anúncio? Trump e seus assessores mantêm contato frequente com executivos do setor de petróleo. Existe uma aliança muito próxima entre a indústria petrolífera, o governo Trump e os republicanos mais alinhados a ele. Portanto, comunicação existe. Ainda assim, é completamente ingênuo acreditar que empresas petrolíferas farão investimentos de longo prazo na Venezuela nas condições atuais, inclusive empresas americanas. É verdade que, após a captura de Maduro, ações de algumas companhias do setor subiram, refletindo a expectativa de que a Chevron possa se beneficiar e de que empresas de serviços, como a Halliburton, obtenham contratos. Mas reconstruir a indústria petrolífera venezuelana exigirá muitos anos e investimentos massivos. Trata-se de um setor que demanda compromissos de cinco, dez ou até mais anos. Nenhuma empresa fará esse tipo de aposta em um país tão instável, especialmente quando a infraestrutura está profundamente deteriorada.
Essa ação militar parece dialogar com o slogan “America First”. Trata-se de uma visão de hegemonia americana para além da América do Norte? Sim. Trump aplica esse slogan de forma global. Mas ele tem uma visão extremamente ultrapassada de como as economias funcionam. Seu pensamento é essencialmente mercantilista, típico do século XVIII ou XIX, a ideia de que países enriquecem acumulando recursos naturais, impondo tarifas e mantendo grandes superávits comerciais. Nenhum economista sério acredita nisso hoje. Trump tem uma compreensão muito primitiva da economia. Ele parece acreditar que simplesmente produzir mais petróleo tornará os venezuelanos mais ricos. Isso é uma ideia profundamente equivocada.