A análise mais recente da ONG Oxfam revela um retrato dramático da desigualdade climática global e lança um alerta econômico e político que deve entrar na agenda dos formuladores de políticas públicas no Brasil e no mundo.
Segundo o estudo divulgado no início de janeiro, o 1% mais rico da população mundial já consumiu toda a sua “cota” anual de emissões de carbono em apenas 10 dias de 2026, um marco denominado pela Oxfam de “Pollutocrat Day” (Dia dos Poluidores Poderosos).
O que significa “cota anual de carbono”
Essa “cota” refere-se à quantidade de dióxido de carbono (CO₂) que uma pessoa pode emitir ao longo de um ano mantendo a temperatura média global dentro do limite de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, objetivo central do Acordo de Paris.
Com base em estimativas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), esse orçamento por pessoa é de cerca de 2,1 toneladas de CO₂ por ano.
Segundo a Oxfam, o 1% mais rico emite, em média, 75,1 toneladas de CO₂ por pessoa ao ano, ou cerca de 36 vezes esse limite seguro.
Com esse ritmo, esse grupo já ultrapassou sua cota anual em 10 dias de 2026, e o 0,1% mais rico esgotou sua cota em apenas três dias.
Desigualdade de carbono e impactos econômicos
A disparidade de emissões entre ricos e pobres é profunda.
Estudos anteriores da mesma linha de pesquisa mostram que desde 1990 o 1% mais rico consumiu mais do que o dobro do orçamento de carbono da metade mais pobre da humanidade somada, enfatizando a desigualdade estrutural no uso de recursos naturais.
Os impactos climáticos ligados a essas emissões desproporcionais têm custos econômicos e humanos.
A Oxfam estima que as emissões do 1% mais rico ao longo de um ano possam contribuir para até 1,3 milhão de mortes relacionadas ao calor até o final do século e causar danos econômicos que podem chegar a US$ 44 trilhões em países de baixa e média renda até 2050.
Além do estilo de vida: investimentos que continuam poluindo
A análise vai além do uso de jatos privados, superiates e casas de luxo. Parte significativa das emissões associadas aos mais ricos vem dos portfólios de investimento que financiam indústrias altamente poluentes.
Cada bilionário detém, em média, investimentos que produzirão cerca de 1,9 milhão de toneladas de CO₂ por ano, mais do que as emissões anuais de muitas nações médias.
Pressão por política pública e propostas da Oxfam
Em resposta, a Oxfam faz um apelo para que governos adotem medidas que alinhem justiça social e objetivos climáticos, incluindo:
Aumento de impostos sobre renda e riqueza dos super-ricos, com apoio a iniciativas como a Convenção da ONU de Cooperação Fiscal Internacional que busque equidade global.
Tributação de lucros excessivos de grandes empresas de combustíveis fósseis — uma proposta denominada Rich Polluter Profits Tax, que poderia arrecadar até US$ 400 bilhões no primeiro ano, equivalente ao custo de danos climáticos no Sul Global.
Banimento ou tributação punitiva de itens de luxo intensivos em carbono, como jatos privados e super-iates, cuja pegada em poucos dias iguala a vida inteira de emissões de pessoas muito pobres.
Reforma do modelo econômico global para priorizar sustentabilidade e igualdade em vez de crescimento desigual e consumo excessivo.
Especialistas e ambientalistas afirmam que medidas desse tipo não são apenas ambientais, mas também políticas fiscais e de redistribuição de renda, e que sem ação coordenada globalmente, os países em desenvolvimento pagarão o preço mais alto, com eventos climáticos extremos e custos de adaptação cada vez maiores.
Contexto global e debates em torno da responsabilidade climática
Essa discussão tem ganhado eco em vários fóruns internacionais.
Em relatórios regionais, como no Oriente Médio e Norte da África, a Oxfam constatou que o 1% mais rico é responsável por cerca de 26% das emissões na região, muito acima da contribuição da metade mais pobre da população, reforçando a relação entre desigualdade e crise climática.
Economistas e ativistas apontam que a crise climática não é apenas um problema ambiental, mas um problema de distribuição de poder e riqueza.
O debate sobre impostos sobre carbono e riqueza, práticas de “poluidor paga” e restrições a estilos de vida de grande impacto pode ganhar força nas negociações climáticas dos próximos anos, especialmente após eventos como a recente conferência da ONU sobre clima no Brasil, onde a presença de lobby de combustíveis fósseis foi destacada como maior do que as delegações de muitos países.
Os dados da Oxfam colocam em xeque narrativas tradicionais de mudança climática que focam exclusivamente em tecnologia ou eficiência energética.
Eles sugerem que sem mudanças profundas na forma como riqueza e emissões estão distribuídas globalmente, os limites climáticos acordados em Paris serão inalcançáveis.
A economia global, mais do que nunca, está no centro do debate climático, e os formuladores de política no Brasil e no exterior enfrentam pressão crescente para vincular justiça fiscal a metas ambientais.