No primeiro final de semana de agosto de 1992, há 33 anos, o cubano-americano Jon Secada chegou ao Top 5 da principal parada americana, a Hot 100, com um single que extrapolou o país anglófono e encantou ouvintes de todas as Américas: Just Another Day. Hoje com 63 anos, Secada continua a se dedicar à música e às influências do jazz, soul e R&B que o consagraram. Com isso, se uniu ao também cubano Gonzalo Rubalcaba para homenagear um dos mestres da música internacional: Nat King Cole (1919 – 1965).
O resultado é o disco Fascination, já disponível nas plataformas de streaming. Com vocais de Secada e arranjos de Rubalcaba, o trabalho contém onze releituras de faixas gravadas por Cole décadas atrás em Cuba, onde nasceram os discos Cole Español (1958), A Mis Amigos (1959) e More Cole Español (1961), responsáveis por propagar a reputação do músico no mercado latino-americano. Em entrevista a VEJA, Secada fez observações sobre o legado vivo de Nat King Cole, sua relação com o Brasil e o panorama da música internacional na indústria americana:
Este disco foi feito em parceria com o também cubano Gonzalo Rubalcaba. De onde surgiu a colaboração? Nós nos conhecemos há uns oito ou dez anos, mas só começamos a trabalhar juntos há quatro ou cinco. Foi quando nos tornamos amigos. Para mim, musicalmente, não poderia respeitar ninguém mais do que Gonzalo. Com ele, tenho a oportunidade de fazer música que remonta a quem sou como músico, apaixonado e treinado em jazz.
O quão diferente é fazer um álbum em dupla? O bom é que todos os arranjos cabem ao Gonzalo. Eu não tive nada a ver com isso. Quer dizer, nós conversamos sobre eles, mas no sentido de eu poder misturar minha voz com o instrumental. São arranjos muito difíceis, mesmo que não pareçam, e me desafiam.
Qual sua relação com a produção em espanhol de Nat King Cole? Quando criança, meus pais tinham os discos e amavam a música dele em espanhol. Foi a primeira vez que ouvi Nat King Cole, mas só depois soube que o primeiro álbum que ele gravou em espanhol foi em Cuba. Ele foi o primeiro artista americano a cantar em espanhol e a fazer mais de um álbum especificamente em outro idioma como esse. Isso fez de Cole um artista muito grande, muito importante na América Latina nas décadas de 1950 e 1960, quando eu sequer existia ou era uma criança pequena. Com a minha formação, percebi a importância do que ele fez.
A produção original de Cole atesta o alcance geográfico impressionante da música, que independe de fronteiras ou linguagens. Em sua própria carreira, como tem sido atingir públicos distantes, feito brasileiros? Essa é a beleza da música. É magia. Foi uma bênção para mim saber que minha música é ouvida e apreciada no Brasil, mesmo que o país não fale inglês. Isso para mim diz muito sobre o povo do Brasil, o país, a cultura, a abertura para algo além do que eles conhecem, além da sua língua.
O disco ainda conta com a colaboração de uma lenda brasileira de jazz, Hamilton de Holanda. O senhor já o conhecia? Essa conexão, na verdade, veio através do Gonzalo, porque eles já tinham trabalhado juntos [no disco Collab]. Ele o indicou, falou com o produtor do disco sobre isso, e eu disse: “Sim, claro.” Quando ouvi ele tocar, foi maravilhoso. Ele é um virtuoso e foi uma honra tê-lo na gravação.
Ao longo dos anos e de suas viagens para cá, quanta inspiração encontrou no Brasil? Quando estou no Brasil, sempre aprendo sobre artistas que são particulares ao país, que só entendo quando viajo para lá. Existem muitos artistas incríveis a serem descobertos. Foi assim que conheci Maurício Manieri, do mesmo jeito que eventualmente conheci Marina Elali. É algo que me faz pensar também no dueto que gravei com Daniela Mercury nos anos 1990 [Se Eu Não Te Encontrasse, do filme Pocahontas].
Apesar da crescente xenofobia nos Estados Unidos, a música latina continua a fazer sucesso nas paradas. O quanto diria que o cenário para essa produção mudou nas últimas décadas? Eu acho que a música mudou, no geral. A maneira como ela toca as pessoas em todo lugar ou o quanto ela se conecta. E, dessa forma, talvez a língua não importe, mas sim o artista, o sentimento ou a vibração da música. Talvez seja isso que fez o Bad Bunny se tornar um artista tão importante, porque as pessoas sentem a música, não importa o quê. O mundo das misturas sonoras explodiu, e esse é só o começo. Eu adoraria ver artistas de diferentes partes do mundo se destacando no mundo inteiro, para além dos EUA. Que isso seja aceito e que o planeta todo esteja aberto. Artistas do Brasil, por exemplo, que alguém se destaque cantando em português assim como Bad Bunny canta em espanhol.
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