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‘Só tem ele’, diz oposicionista sobre filho do xá como alternativa no Irã

Os gritos que se erguem nas ruas do Irã são de arrepiar. “Morte a Khamenei”, “Nem Gaza nem Líbano, nosso sangue só pelo Irã”, “Liberdade, liberdade”. E, aqui e ali, “Viva o xá”. É aí que existe uma brecha para o que sempre pareceu impossível: um retorno do príncipe herdeiro que deixou o país quando tinha apenas 17 anos, Reza Pahlavi, o filho do xá.

Não seria, obviamente, um monarca absoluto, como o pai, mas uma alternativa unificadora, à frente de um regime monárquico democrático, chancelado pelo povo para substituir o regime teocrático dos aiatolás.

Parece absurdo, mas um nome da oposição fez, obviamente em sigilo, uma análise sucinta: “Só tem ele”. A definição encapsula a falta de líderes de uma oposição reprimida e fragmentada, movida agora por uma enorme, talvez irresistível, revolta popular que levou o líder supremo, a ridícula definição ao papel preponderante do aiatolá Ali Khamenei, a se voltar contra o próprio povo, dizendo que estavam incendiando latas de lixo “para agradar” Donald Trump. Centros incendiados mostrados em vídeos de celular mostravam muito mais do que “latas de lixo”. O Irã está em chamas.

Investir contra o próprio povo um sinal evidente de que as coisas vão muito mal para o lado do aiatolá de 86 anos. O simples fato de que o príncipe herdeiro que mora nos Estados Unidos seja considerado como um possível sucessor ou aglutinador já mostra que o regime está à beira da derrocada. Pahlavi deu um sinal de força: convocou os iranianos a se manifestar às 20 horas da noite de quinta-feira, depois às 18 de sexta e sábado. Conseguiu uma enorme adesão. Não dá para quantificar, nem dizer se os protestos eram em resposta ao apelo ou aconteceriam de qualquer maneira, mas também não dá para desprezar.

‘Parasitas, assediadores’

Um retorno de Pahlavi seria uma ironia histórica de derrubar muitos queixos. O regime de seu pai, o xá Mohammad Reza Pahlavi, ruiu em 1979 porque praticamente todos os iranianos saíram às ruas em protesto. Era um movimento nacional não exclusivamente centrado na figura do aiatolá Khomeini, embora ele fosse um inconteste líder de massas, principalmente do povão mais fiel aos princípios religiosos fundamentalistas que pregava.

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Muitas pessoas bem intencionadas acharam que a queda do xá abriria uma porta para a democracia no Irã. O que aconteceu foi que os líderes religiosos expurgaram brutalmente todas as forças da oposição que não cantavam pelas regras do regime teocrático, inclusive, ou principalmente, líderes de esquerda que eram um componente importante do espectro político no Irã.

Foi uma luta brava, inclusive contra uma guerrilha islamo-marxista – nada de novo se inventa sob o sol. Ali Khamenei sofreu em 1981 um atentado com uma bomba, escondida num gravador quando pregava na mesquita, que o deixou até hoje sem o uso do braço direito.

Seu líder e quase xará, o aiatolá Khomeini, foi inflexível na repressão aos competidores e na imposição das regras mais ortodoxas do islamismo xiita, obrigando as mulheres a cobrir a cabeça e o corpo com mantos negros, uma das proibições que hoje as manifestantes desafiam nos protestos gritando aos repressores: “Vocês são parasitas, vocês são assediadores, nós somos mulheres livres”. Até hoje as mulheres não podem dirigir, embora muitas desafiem a proibição.

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Cofre particular

Seria Reza Pahlavi uma alternativa razoável? Há muitas dúvidas. Ele não tem partido nem seguidores fora do círculo no exílio. Seu título de príncipe herdeiro é autoproclamado, uma vez que a monarquia foi abolida.

O histórico de tragédia familiar é grande. O pai morreu de câncer um ano depois de ser derrubado e ficar vagando de país em país – ninguém queria mais saber do imperador deposto que, no poder, se proclamava detentor de títulos milenares persas como shahensha (rei dos reis), vice- regente de Alá, Sombra do Todo-Poderoso e Centro do Universo. O irmão, Ali, se suicidou nos Estados Unidos, afligido por depressão profunda. A mãe, Farah Diba, foi convocada para se casar com o xá porque a esposa que ele amava não poderia ter filhos. Era Soraya, a princesa de olhos verdes herdados da mãe alemã, de quem havia ficado noivo com um kardashianesco anel com um diamante de 22 quilates, que chegou a ser uma celebridade comparável a Diana ou Kate, em termos da época.

A família não tem pedigree de realeza: a dinastia foi iniciada pelo avô do atual herdeiro, oficial do Exército que se proclamou imperador depois de derrubar o regime e o monarca dinástico. O xá Mohammad Pahlavi tratava o tesouro nacional como cofre particular e tinha projetos grandiosos, como a celebração de 2 500 anos do império persa na qual gastou cerca de meio bilhão de dólares, levando chefs do Maxim’s de Paris para servir caviar a convidados de todo o mundo em tendas montadas no meio do nada.

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Barrigas vazias

Também havia muita rejeição entre a população do interior, mais apegada às tradições religiosas, desde que seu pai, o fundador da dinastia, proibiu o uso do véu na cabeça, numa tentativa forçada de modernização. Em Teerã, a classe média vivia uma vida ocidentalizada, daí as famosas fotos de época de mulheres jovens usando saias curtas, mas muito do apoio a Khomeini veio dos setores que se consideravam excluídos. Muito também veio da esquerda urbana e intelectual, que imaginava uma revolução na qual teria o controle.

A desilusão foi rápida e arrasadora. O regime, baseado nas regras da teocracia chefiada pelo líder supremo e seu conselho de jurisconsultos, dura 47 anos. Nunca esteve mais ameaçado, sob a dupla pressão da insatisfação social e do desmoronamento da economia, com brutal desvalorização da moeda e inlação de mais de 70% nos preços da alimentação. Sem contar que existe um certo Donald Trump na presidência dos Estados Unidos e seu último aviso foi que “estamos prontos para ajudar” o povo iraniano.

Barrigas vazias sobre um mar de petróleo são uma das muitas contradições do Irã. As enormes quantias que o regime destina a seus aliados no Hamas, no Hezbollah e em grupos xiitas iraquianos, sem contar as minorias derrubadas na Síria, provocam revolta entre uma população que está perdendo tudo.

Se Reza Pahlavi, o herdeiro de 65 anos de um regime que não existe mais, souber se movimentar, talvez haja uma brecha para um retorno. Ou talvez os iranianos não queiram nada ligado ao passado, nem xá nem aiatolá. No momento, a roda da história está girando rápido demais para saber o que o futuro imediato reserva. Mas podemos muito bem comemorar as fotos de iranianas, de cabelos soltos, acendendo cigarros com um cartaz em chamas do aiatolá Khamenei. Liberdade, liberdade.

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