No livro recém-lançado Espírito Shaolin (Editora Intrínseca), o senhor propõe medidas oriundas de uma tradição ancestral para lidar com as crises individuais atuais. Como esses ensinamentos podem fazer a diferença hoje? O sofrimento humano, independentemente de derivar de conflitos, de carências ou de desejos não realizados, tem sempre uma causa. E a grande maioria das abordagens para lidar com ele visa à melhora de circunstâncias objetivas. A tradição Shaolin, em contrapartida, não enfatiza o desenvolvimento dessas questões externas, mas o aprimoramento do próprio indivíduo.
Por que isso é tão relevante? É assim que chegamos ao autodomínio. Ele concentra a atenção no cultivo de si mesmo, de nossas crenças, padrões, perspectivas e pensamentos. Compreender claramente nosso próprio lugar nesta vida terrena é o que dará origem às soluções e aos insights que serão adequados à nossa vida.
Qual é o maior desafio hoje para incorporar os preceitos da filosofia Shaolin? Existe um equívoco generalizado de que a aquisição de conhecimento, informação, fama, dinheiro e validação externa equivale a ter uma vida plena. Mas todo o trabalho não deve ser feito para o mundo. Deve ser feito, antes de tudo, para si mesmo.
Cuidar da mente ou do corpo: o que é mais difícil em nossos dias? A tradição Shaolin preconiza uma série de exercícios físicos, mas é inegável que a mente precisa ser cultivada e treinada de forma apropriada. Um único pensamento pode arruinar o dia — não importa se ele é verdadeiro ou não.
A sociedade contemporânea também vem falhando, sob o seu ponto de vista? A questão central continua sendo a ignorância da sociedade atual. Ela confunde o falso com o verdadeiro, o verdadeiro com o falso, a verdade com a mentira e a mentira com a verdade. A menos que surja o desejo de pôr fim a isso, o ciclo de danos repetitivos continuará. Não apenas para nós mesmos, mas também para aqueles que estão ao nosso redor.
Se pudesse deixar um conselho fiel ao espírito Shaolin, qual seria? Pergunte sempre a si mesmo se você está verdadeiramente satisfeito com a sua vida e se as soluções que o mundo propaga têm realmente funcionado no seu caso. Não existe nada neste mundo que possa preencher e satisfazer o vazio interior. Isso só pode ser feito por meio da introspecção.
Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977