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Se valores fazem sentido, por que às vezes é tão difícil segui-los?

Na madrugada do último domingo, 11, o cinema brasileiro viveu um momento histórico. Na cerimônia do Golden Globe Awards, em Los Angeles, Wagner Moura venceu o prêmio de Melhor Ator em Filme Dramático por sua atuação em O Agente Secreto.

Mas o que permaneceu comigo não foi o troféu — foi a leitura psicológica que ele fez do próprio trabalho.

Ao falar sobre o filme, Moura disse: “É um filme sobre memória, a falta dela e um trauma geracional. Eu acho que se um trauma pode ser passado por gerações, os valores também podem. Esse prêmio vai para quem está seguindo seus valores em momentos difíceis.”

Essa frase merece ser lida com atenção. Não como celebração. Mas como diagnóstico.

Porque o palco mostra o resultado. Nunca mostra o custo cotidiano das escolhas que vieram antes.

Depois de anos circulando por produções internacionais, personagens politicamente incômodos e decisões que nem sempre agradaram, o reconhecimento chega. Mas o que se vê na noite do prêmio é apenas o recorte final de uma vida organizada por escolhas difíceis — repetidas muito antes de qualquer aplauso.

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Porque “seguir valores em momentos difíceis” descreve algo que, na prática clínica, eu vejo ser raro, custoso — e frequentemente abandonado quando a emoção aperta.

Valores não são ideais abstratos. São escolhas observáveis quando o desconforto aumenta. Quando a ansiedade pede alívio. Quando o medo sugere recuo. Quando a raiva convida ao ataque. Quando o cansaço promete anestesia.

É nesse ponto que quase todo mundo descobre algo incômodo: viver alinhado a valores não é confortável — é exigente.

Uma vida organizada por emoções busca reduzir a dor agora. Uma vida organizada por valores aceita custos hoje para sustentar sentido amanhã.

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O cérebro, por definição, prefere a primeira opção. Ele foi moldado para detectar ameaça e restaurar conforto. Não para sustentar coerência.

Por isso, muitas escolhas que parecem “sensatas” no curto prazo são, na verdade, tentativas sofisticadas de evitar desconforto.

É assim que a evitação se disfarça de decisão razoável. Trabalhar mais para não sentir medo. Ceder para não enfrentar conflito. Postergar para não falhar. Distrair para não pensar.

No curto prazo, funciona. No longo prazo, cobra.

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Quando pessoas abandonam valores sob pressão, o custo não aparece como culpa moral. Aparece como perda de direção. Como relações que esvaziam. Como carreiras que avançam sem pertencimento. Como uma sensação persistente de estar vivendo “fora de si”.

Vejo isso também quando pessoas olham para trajetórias “bem-sucedidas” e confundem resultado com facilidade. O que não aparece são as noites solitárias, as escolhas sem garantia, a ausência de rede, os momentos em que desistir teria sido emocionalmente mais fácil.

Valores, ao contrário do que se vende, não aliviam .Eles exigem repetição em dias ruins. Exigem escolhas que não são recompensadas imediatamente. Exigem tolerar a solidão de não fazer o que seria mais confortável.

É aqui que muitos desistem — não porque não acreditam nos valores, mas porque subestimam o preço de sustentá-los.

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É por isso que a fala de Moura é precisa. Ela não romantiza valores. Ela os coloca onde eles realmente vivem: no atrito com o medo.

Traumas podem ser transmitidos quando viram regras implícitas de proteção. Valores só atravessam gerações quando são praticados — especialmente quando doem.

O prêmio não é prova de sucesso. É evidência de custo sustentado.

E talvez a pergunta que esse momento nos devolve não seja sobre cinema. Seja sobre escolhas.

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Quantas vezes você confundiu sentir-se melhor com viver melhor? E, sob pressão, o que tem guiado suas decisões: alívio imediato ou valores escolhidos?

Para aprofundar essa reflexão com rigor psicológico e sem atalhos, o convite continua em Viver com Ousadia. E a conversa segue no Instagram @luanamarques.phd — como continuidade intelectual, não como consolo.

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