Roma amanheceu diferente nesta sexta-feira, 23. O passo desacelerado, o ar denso, como se a cidade soubesse que um de seus maiores símbolos de elegância estava prestes a se despedir. Dentro da Basílica di Santa Maria degli Angeli e dei Martiri, o tempo pareceu suspenso para acolher Valentino Garavani, que morreu aos 93 anos, na última segunda-feira, dia 19. O funeral reuniu não apenas nomes históricos da moda e do cinema, mas uma constelação de afetos que orbitou o estilista por décadas.
A cerimônia foi o desfecho de dois dias de velório no PM23, espaço cultural da Fondazione Valentino Garavani. Ali, o caixão permaneceu sob um imenso arranjo de flores brancas, quase escultórico, antes de seguir para a basílica no coração da capital italiana. O branco dominava o cenário — nas flores, na luz, no silêncio respeitoso — enquanto o vermelho surgia em detalhes discretos, em broches, lenços e acessórios, como uma assinatura sutil deixada pelos que sabiam exatamente quem estavam homenageando.
Entre os presentes, Anne Hathaway chamou atenção não apenas pela presença, mas pelo peso simbólico que carrega na história recente da maison. Musa contemporânea de Valentino, a atriz compareceu ao lado do marido, Adam Shulman, em uma aparição sóbria e profundamente comovida. Hathaway vestiu o estilista em alguns dos momentos mais emblemáticos de sua trajetória no tapete vermelho, tornando-se uma das faces modernas de um legado que atravessou gerações.
Anna Wintour chegou acompanhada de Tom Ford, em um gesto que uniu dois capítulos essenciais da moda internacional. Também estavam ali Alessandro Michele, atual diretor criativo da Valentino, e Pierpaolo Piccioli, que comandou a casa por 16 anos e ajudou a atualizar o romantismo do fundador para o século 21. Donatella Versace, Maria Grazia Chiuri, Olivia Palermo, Johannes Huebl e Bianca Brandolini d’Adda se misturaram aos convidados em uma despedida que parecia mais íntima do que protocolar.
Do lado de fora, fãs se reuniram com cartazes, mensagens escritas à mão e flores. Muitos escolheram vestir algo vermelho — não como tendência, mas como reverência. O tom criado por Valentino, eternizado como Rosso Valentino, atravessou a praça como um código silencioso de pertencimento.
Mestre dos mestres
A trajetória do estilista é indissociável da história da moda moderna. Formado em Paris, Valentino voltou à Itália para fundar, em 1960, sua casa em Roma, transformando a cidade em sinônimo de alta-costura internacional. Vestiu primeiras-damas, atrizes, princesas e mulheres anônimas que buscavam uma ideia muito específica de beleza: refinada, segura, elegante, luminosa. Aposentou-se oficialmente em 2007 e se despediu das passarelas em janeiro de 2008, em Paris, quando todas as modelos desfilaram em vermelho, um gesto que dispensava explicações.