A amizade entre Erika Hilton (Psol-SP) Henrique Vieira (Psol-RJ) poderia parecer improvável para muitos. Ela, uma deputada federal trans, negra e defensora dos direitos LGBTQIA+. Ele, um pastor progressista, também deputado e voz ativa contra o fundamentalismo religioso. No entanto, foi justamente desse contraste que nasceu uma parceria, que, para ambos, é “profundamente” transformadora. Em outubro, os dois lançaram o livro O que te faz lutar? (ed. Planeta), onde contam como surgiu essa parceria – do primeiro evento político às batalhas nas Câmaras dos Deputados – e mostram como a política pode ser feita com afeto.
“Uma das regras que a gente quer derrubar é a de que pessoas não podem estar conectadas às outras. É a regra do ódio, da violência, do massacre a determinados grupos sociais. Quando discutimos por que escrever um livro e por que criar um diálogo entre um pastor e uma travesti, a prioridade é essa: humanização, respeito, direito à dignidade e direito à representação nos espaços de poder e da sociedade como um todo”, explicou Erika à coluna GENTE.
Do mesmo partido, os parlamentares se conheceram já no cenário político e rapidamente se identificaram. “A partir do momento que chegamos no Congresso e entendemos o quanto há uma tentativa de afastamento sistemático, de pautas religiosas com questões envolvendo a comunidade LGBT, pessoas trans em especial, vimos ali uma união potente. Uma união de mostrar: por que um pastor não pode respeitar e, mais do que apenas respeitar, lutar ao lado das pessoas nas suas multiplicidades? O Henrique se tornou esse companheiro de luta”, lembra a deputada.
Para Hilton, a naturalidade neste encontro de trajetórias ajuda a quebrar o preconceito na sociedade. “Se um pastor, ao olhar uma travesti numa esquina, ao invés de ver ‘o mal’, ‘o perigo’, ‘o demônio’, olhar um ser humano, talvez encontre ali muitas das suas próprias dores e histórias. Somos todas pessoas com dores, encontros e cruzamentos. E quando deixamos de lado preconceitos e nos conectamos na humanidade, um pastor e uma travesti podem ser, inclusive, instrumentadores da democracia, da diversidade religiosa e de muitas outras questões. Quando escanteamos tudo o que é ensinado, vemos potências e encontros que parecem impossíveis, mas não são”, conclui.