“Nós vamos dirigir a Venezuela, com um grupo de pessoas”, disse Donald Trump sobre a era pós-Maduro. O presidente americano já disse algo parecido, com a imprudência habitual, em relação a Gaza e nada aconteceu até agora. Se o mesmo se repetir, ficará desmoralizado. A captura de Nicolás Maduro, numa operação que combinou a ousadia do Mossad israelense e a arrasadora superioridade militar americana, ficaria parecendo o clássico tiro de canhão para pegar uma mosca. Uma permanente presidente Delcy Rodríguez soaria grotesca. Ou estaria ela disposta a fazer negócios?
Delcy e seu irmão Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional – obviamente um órgão aparelhado pelo chavismo e sem nenhuma legitimidade -, tinham a característica de serem o número dois e o número três se a sucessão de Maduro seguisse a hierarquia oficial. Agora subiram um degrau.
Não sabemos como os companheiros estão discutindo a questão, com todos sob o risco de serem os próximos abduzidos e sob a nuvem de suspeitas de que um dos integrantes da cúpula máxima foi o informante da CIA que vazou todos os passos de Maduro – uma informação plantada para aumentar a briga interna, mas muito possivelmente verdadeira.
Mas é bom saber quantos canhões tem Delcy? Pode negociar uma transição?
Poucos, embora seja uma emérita militante chavista, filha de um líder comunista e fundador de um grupo armado, morto sob tortura em 1976, depois de chefiar o sequestro de um empresário americano. Seu irmão Jorge, um psiquiatra cercado por sociopatas narcisistas como são os caudilhos e seus cúmplices, era visto como uma figura mais suscetível a negociações.
INTERLOCUTORA ACEITÁVEL?
Mas se o critério fosse o de quem manda nos canhões, os sucessores seriam Diosdado Cabello, ministro do Interior e “policial mau” quando fazia dupla com um Maduro “bonzinho”, que tem sob sua égide os serviços de segurança e a coordenação com os cubanos que mandam neles, ou o general Vladimir Padrino, o ministro da Defesa a quem respondem todos os comandantes militares seduzidos pela corrupção e revelados em toda a sua absoluta impotência pela operação americana. Nem sequer fingiram reagir, um vexame nada surpreendente, considerando-se que todas as manifestações de poderio militar eram apenas isso, encenações. Se o adversário não estiver desarmado na rua ou amarrado na cadeia, eles não são de nada.
Não é muito difícil imaginar o pavor que está passando pela cabeça desse pessoal todo, mas o fato é que o regime não ruiu imediatamente depois da captura de Maduro. Delcy Rodríguez, que assumiu como presidente interina, pode ser uma interlocutora aceitável – segundo Trump, o secretário de Estado Marco Rubio tinha falado com ela. Em declarações nebulosas, Rubio disse que os Estados Unidos dirigirão a Venezuela através dos líderes remanescentes, “se eles tomarem as decisões certas”.
Descrita por uma fonte do governo, falando ao New York Times, como “alguém com quem podemos trabalhar”, Delcy Rodríguez possivelmente não chamará mais os Estados Unidos de “império selvagem e bárbaro”, como já fez. “Se não fizer o que é certo, pagará um preço muito alto”, foi o recado que ficou de Trump.
A presidente interina e periclitante começou a carreira política como advogada trabalhista e passou por um makeover, semelhante ao de Cilia Flores, a mulher que agora compartilha a tristeza e a pobreza com Maduro numa penitenciária federal em Nova York, depois de tanta alegria e riqueza. O modelo padrão inclui cabelos alisados, óculos de grau caros e bolsas de grife. Já desfilou de Chanel, a marca preferida das companheiras bolivarianas – uma delas, equivalente a “657 salários mínimos” dos miseráveis venezuelanos, como notaram pessoas ligadas nesses exibicionismos. Numa viagem à Argentina, desembarcou de Louis Vuitton na mão. Ah, a hipocrisia…
Ela também protagonizou um escândalo chamado de Delcygate na Espanha, onde foi vender barras de ouro para empresários amigos, sem descer do avião por causa das sanções europeias. Seu companheiro é Yussef Abu Nassif Smaili, venezuelano de origem libanesa que, com seus dois irmãos, controla dezenas de empresas e faz uma ponte com a PDVSA, a inesgotável fonte do dinheiro do petróleo, mesmo em época de vacas magras. Alguém, afinal, tem que bancar o chanelismo, o socialismo que usa Chanel.
UMA VITÓRIA VAZIA?
Como pode toda essa laia continuar no poder? E o que Trump tem em mente para não sair desmoralizado depois de uma operação tão brilhante? Ele falou vagamente numa “segunda onda” de ataques e fez referência a um papel direto dos Estados Unidos no governo da Venezuela, contrariando toda a lógica – e também as expectativas da oposição venezuelana. María Corina Machado já disse que o presidente legítimo, roubado por Maduro, é Edmundo González e, como tal, deveria assumir. Ela “é fantástica, mas temos que lidar com a realidade imediata”, contrapôs Marco Rubio.
Ninguém vai assumir nada se os bolivarianos continuarem a dominar todos os mecanismos do poder. “Terá sido uma vitória vazia se Maduro foi o único prêmio”, escreveu o ex-assessor de Segurança Nacional transformado em inimigo figadal de Trump, John Bolton. Tem razão nesse caso. A ditadura decapitada também precisa ter cuidado: se desfechar atos de vingança contra os oposicionistas que ainda não fugiram para o exílio, justificará uma nova intervenção americana – e de natureza bem diferente.
Terá Trump planejado criteriosamente o “dia seguinte” à captura de Maduro? A condução da operação foi brilhante a ponto de o ditador se exibir em compromissos oficiais até o último instante, como um encontro na noite de sexta-feira com o enviado especial chinês, Qiu Xiaoqi, o seu derradeiro como presidente – um sinal de que a China também foi feita de boba e não tinha ideia de que um plano tão abrangente, envolvendo uma gigantesca mobilização militar, já estava em andamento, com os aviões no ar, aguardando apenas a melhora das condições climáticas.
Dizem os muito maldosos que Qiu aproveitou para pôr um rastreador em Maduro e facilitar a sua “remoção”, tirando do jogo uma figura prejudicial a todas as partes, mas mantendo um regime amigo no poder. É, obviamente, uma intriga feita para satirizar o debate.
RASTREADORES HUMANOS
Mas o fato é que, enquanto o regime continuar, seja com Delcy Rodríguez ou outra figura, a China não está perdendo – mesmo confrontada com a perspectiva de ver ir pelo ralo os muitos bilhões investidos na indústria do petróleo – e os Estados Unidos, apesar de um lance espetacular como a captura de Maduro, não estão ganhando uma vitória inconteste.
Embora muitos valentões bolivarianos estejam morrendo de medo de rastreadores, eletrônicos ou humanos, os americanos só serão vistos como vitoriosos se mudarem o jogo.
Ah, sim, e o governo brasileiro, para não deixar dúvidas sobre uma trajetória de erros crassos rapidamente passou a tratar a companheira Delcy Rodríguez como presidente legítima. Os responsáveis, ou irresponsáveis, realmente acham que é um bom momento para comprar briga com Trump e se indispor eternamente com o próximo regime venezuelano. A Colômbia foi na mesma linha e Trump avisou que é “um país doentio, governado por um homem doentio, que gosta de produzir cocaína e vender nos Estados Unidos e não vai continuar fazendo isso por muito tempo”.
Trump usou uma gíria, FAFO, para definir a queda de Maduro. Ela contém uma palavra chula em inglês, mas na versão publicável equivaleria, no Brasil, a “se meta a besta para ver o que acontece”. Parece que a turma FAFO está caprichando – embora, curiosamente, omita o nome de Maduro nas manifestações críticas aos Estados Unidos. Pelo menos o pessoal já percebeu que associar-se ao novo integrante do sistema prisional americano equivale à versão política de uma contaminação nuclear. Os companheiros largaram a mão de Maduro e só os inocentes úteis não perceberam.
No caso do prisioneiro que terá a primeira audiência hoje, Trump fez a única coisa que ninguém havia cogitado e pode ter outras surpresinhas no bolso. “Ataque-o onde ele está despreparado. Apareça onde você não é esperado”, prega, através dos milênios, o mestre Sun Tzu, sobre como surpreender os inimigos. Estará Trump lendo A Arte da Guerra ou simplesmente seguindo os princípios expostos em seu A Arte da Negociação?