Foi visitar Vladimir Putin em 2025 e se desmanchou em rapapés? Não tem o direito de criticar a intervenção-relâmpago americana que levou Nicolás Maduro para uma viagem indesejada aos Estados Unidos. Não condenou de forma veemente, pública e categórica a eleição presidencial roubada pelo tiranete? Examine a sua própria consciência. Acha que existem casos “excepcionalíssimos” em que se pode instaurar a censura no Brasil? E por que não admitir a excepcionalidade do caso do venezuelano, à frente de um regime que se tornou especialista no transporte e proteção do tráfico de drogas em grande escala?
Não é preciso ser especialista em direito internacional – e aparentemente metade da humanidade agora entrou para a categoria – para entender os riscos da intervenção ordenada por Donald Trump, um caso nunca visto de captura de um presidente – ainda que ilegítimo – em pleno domínio de suas atribuições.
Um ser maligno como Putin pode alegar o mesmo, ou coisa pior, para tentar raptar Volodimir Zelenski na Ucrânia – não que não tenha tentado, mas os ucranianos são um osso duro de roer.
Ter a força não significa ter o direito e isso é uma conquista da humanidade.
Mas os que hoje choramingam por Maduro perderam a razão e não adianta agora vir dizer que a intervenção e os bombardeios na Venezuela “ultrapassam uma linha inaceitável”. O certo, aliás, seria dizer ultrapassam a linha do aceitável, mas o pessoal do Itamaraty deve ter sido pego de surpresa na madrugada de sexta para sábado, quando estava de folga de seus brilhantes planos para fazer a diplomacia brasileira seguir no seu caminho de glórias colossais e ter um papel na “resolução de conflitos”, como chama tudo o que não gosta.
Também é errado achar que só a direita tem motivos para comemorar. As tiranias à la venezuelana ultrapassam amplamente as diferenças ideológicas. Seriam todos os venezuelanos que saíram para comemorar nas ruas de Santiago perigosos integrantes da extrema direita? É claro que não. É claro que quem tem uma gota de decência não pode lamentar o fim espantoso de Maduro e excelentíssima esposa, que terão que responder por crimes como tráfico de drogas e até posse de metralhadora.
A excelentíssima, por sinal, tem uma certa experiência, visto a prisão no Haiti, a remoção para os Estados Unidos e a condenação dos dois sobrinhos – um deles filho de criação – envolvidos no negócio de sempre. Um deles chegava a reclamar, em gravações feitas pelos americanos, que “é muito difícil traficar drogas; é muito estressante”. Apelidados de “narcosobrinhos”, eles foram soltos em troca de cidadãos americanos presos em retaliação na Venezuela.
Agora, não há reféns para trocar por Maduro e a excelentíssima, uma militante de alto coturno que fez carreira nas esferas do poder chavista e tem – ou tinha – o hábito de usar grifes caríssimas, como Chanel e a bolsa Dolce & Gabbana de 3,5 mil dólares que desfilou quando foi recebida com o marido com todas as honras em Brasília, uma vergonha que ficará marcada no currículo brasileiro.
A esquerda deveria fazer uma bela autocrítica e reconhecer como o apoio a Maduro é contra todos os princípios éticos e prejudicial a ela mesma. Nem que seja por autointeresse: a miséria galopante instaurada pelo chavismo entrou na imaginação popular e se tornou exemplo de tudo o que não deve ser feito. Identificar-se com esse tipo de desastre é entrar numa armadilha – embora irresistível para o pensamento deturpado pelas lentes ideológicas.
A excepcionalidade da intervenção de Trump se reflete na obscuridade, no momento, sobre o que vai acontecer na Venezuela. Irá o regime se manter mesmo com Maduro subtraído? Houve algum acordo de bastidores entre uma parte dos bolivarianos com os Estados Unidos e se procederá a uma transição? O povo oprimido vai continuar de fora?
Não sabemos, por enquanto. Só sabemos que um tiranete ridículo, embora esperto, que se dizia protegido por Deus, descobriu que estava muito longe Dele e muito perto do longo braço americano. É algo a ser celebrado, em quaisquer circunstâncias.