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Quem é o diretor de Amarela, curta brasileiro que chegou perto do Oscar

Quando tinha por volta de 11 anos, o paulista André Hayato Saito ganhou algumas câmeras fotográficas e filmadoras de alguns tios dekasseguisdescendentes de japoneses do Brasil que vão para o Japão a trabalho — que visitavam o país. Gravando paisagens, o menino era criticado pelo irmão mais velho por “filmar nada”, mas, juntando aquela atividade com observar o mesmo irmão jogando RPG (role-playing games — jogo com personagens em cenários fictícios), André viu ali nascer a vontade de criar histórias. Passadas exatas três décadas da época que ganhou aqueles aparelhos, Saito tem hoje 41 anos e viu seu curta-metragem mais recente, Amarela, chegar perto de disputar um Oscar. Após entrar na shorlist da maior premiação de Hollywood divulgada em dezembro, a produção brasileira era cotada para uma das cinco vagas da categoria de melhor curta-metragem de ficção, porém, acabou não chegando à seleção final. Apesar desse revés, Amarela continua sendo um belo retrato da vivência de nipo-brasileiros e reforça a potência do audiovisual brasileiro.

Em entrevista a VEJA, André Hayato Saito, neto de japoneses que imigraram para o Brasil e filho de um casal de comerciantes batalhadores, fala de sua trajetória como pessoa, produtor e cineasta, da jornada de Amarela por mais de cem festivais de cinema e do que vem pela frente em sua carreira. Confira:

Qual é a história das suas origens? Eu sou da terceira geração de imigrantes, sansei, e a segunda geração de nipo-brasileiros da minha família. Minhas bachans (avós) têm origem japonesa. A por parte de pai nasceu no Japão e a por parte de mãe nasceu no Brasil, mas sempre morou na roça e só falava japonês. Minha avó paterna é de Gunma, que fica a algumas horas de Tóquio. Minha avó materna era do interior, de Guararema.

E como era a configuração da família, e com o que seus pais trabalhavam? Minha avó paterna teve 11 filhos e a materna teve oito. As duas trabalhavam “para fora”. Por isso tive muitos tios e primos, a família sempre foi bem grande. Meu pai começou na roça desde os 8 anos, carregando saco de arroz e café. Depois trabalhou em mercadinho, foi contador e se formou economista. Trabalhou em banco, abriu uma locadora de videogames e, depois de dificuldades financeiras, voltou ao banco. Minha mãe também trabalhou na roça e, quando foi para São Paulo adolescente, trabalhou como empregada doméstica. Depois foi cabeleireira, manicure, trabalhou no comércio, na locadora com meu pai e em loja de roupa de bebê. Ela também cozinha muito bem para a vizinhança.

Então, eles construíram a vida em São Paulo, certo? Sim, na Zona Norte, no Jardim Sônia. É onde o filme Amarela se passa. Eu nasci e cresci lá por 25 anos. Inclusive, filmamos na rua e na casa em frente à que eu cresci.

Quando surgiu a vontade de trabalhar com arte e cinema? Foi algo específico ou na hora do vestibular? Na verdade, prestei vestibular para Engenharia primeiro, seguindo meu irmão e meu pai. Mas tive influências audiovisuais. Uma delas foi a época da locadora de videogames; eu via meu irmão jogando RPG e ficava encantado com aquelas histórias. Outra fase foi quando tios dekasseguis voltavam do Japão e traziam câmeras, que eram caras aqui. Eu pegava essas câmeras nas viagens e ficava filmando paisagens, de forma contemplativa.

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E como foi a transição para a comunicação? Acabei prestando Comunicação Social, com foco em Publicidade. Na faculdade, comecei a gostar de fazer curtas, mas ainda não imaginava trabalhar com cinema. No TCC, meu grupo decidiu fazer um curta-metragem sobre o mercado de curtas no Brasil. Quase desistimos porque a pré-banca foi um fracasso, mas batemos o pé. Acabamos fazendo um curta amador com a participação do Dan Stulbach.

Como conseguiram colocar o Dan Stulbach no projeto? Um amigo do grupo o conhecia, ele fez o favor e foi muito generoso. Teve um momento em que ele entrou em cena e eu fiquei chocado com a atuação. Ele me pediu para ir dirigindo enquanto ele fazia a cena, já que a locução seria em off. Eu pedi para ele passar do sorriso para a tristeza e uma lágrima caiu em 10 segundos. Aquela foi a primeira semente do cinema em mim: ver um ator incorporando uma ideia que escrevi. Depois disso, juntei dinheiro e fui estudar cinema na Argentina.

O diretor André Hayato Saito
O diretor André Hayato SaitoAcervo pessoal/Divulgação

Antes de Amarela, em quais produções havia trabalhado antes? Trabalhei no longa Quanto Dura o Amor, do Roberto Moreira (estágio de arte); no filme da Juliana Rojas e Marco Dutra, Trabalhar Cansa, como assistente; e em Eu e Meu Guarda-Chuva, do Toni Vanzolini. Fui também fazendo curtas menores para treinar a direção.

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Amarela faz parte de uma trilogia, certo? Como foi a concepção dessa história? Os dois primeiros curtas eram documentários com ficção: Kokoro to Kokoro, filmado no Japão sobre uma amiga da minha batchan paterna, após eu descobri que as duas tinham feito um pacto de que elas se encontrariam depois de morrer onde “botos cor-de-rosa se encontram na Amazônia”. Eu fiquei muito chocado com essa história e decidi transformar em um doc. E Vento Dourado é sobre o cuidado visceral da minha mãe com a minha outra avó, que morou com ela por 18 anos até o final da vida, em um cuidado bem intenso com aqueles cuidados que idosos exigem. Já Amarela é 100% ficção. Ele nasceu de um sentimento de não-pertencimento como asiático-brasileiro. Mesmo em São Paulo, é comum nos sentirmos estrangeiros no próprio país. A história foca nessa menina que luta para pertencer, mas é sempre colocada como “exótica” ou “estranha”.

O cenário da casa é muito realista, próximo de um lar de bachan mesmo. Como foi essa construção? A diretora de arte, Luana Calamura, me provocou a buscar minhas origens. Voltei à rua onde nasci e bati na porta de vizinhos antigos. Resgatamos aquele universo de “bagunça de nihonjin” e o cheiro de casa de bachan, que é algo sensorial e único.

Por que é importante falar de identidade hoje? Todo ser humano quer encontrar seu lugar no mundo. Para mim, investigar minha ancestralidade foi um processo de cura. Eu reneguei minha origem japonesa por muito tempo na adolescência para tentar ser “brasileiro”, gostando de futebol e evitando coisas como karaokê ou beisebol para não ser visto como diferente. Hoje, com dois filhos pequenos, penso na representatividade que deixaremos para eles.

Como foi a experiência de Cannes e da shortlist do Oscar? Foi uma trajetória linda. Estrear em Cannes foi surreal. Passamos por mais de 100 festivais em 35 países. A shortlist foi um reconhecimento gigante e uma responsabilidade de representar a narrativa amarela do Brasil, saindo de lugares fetichizados ou estereotipados.

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Como reagiu à divulgação da lista de indicações? A gente fica triste, claro. Mas, ao mesmo tempo, com um bebê de 14 dias no colo, senti um certo alívio, porque o trabalho de campanha é muito intenso e cansativo. Logo já estava focado na vida normal e no próximo passo.

Quais são os próximos projetos? O longa-metragem Crisântemo Amarelo, que vamos filmar este ano. É uma expansão de Amarela. Enquanto o curta fala de identidade, o longa entra na camada do luto e do silêncio dentro da cultura japonesa, passando pela Copa de 2014.

Quais os principais desafios da indústria hoje? A falta de recursos e a alta competitividade. É muito difícil ganhar dinheiro com cinema; muitos recorrem à publicidade. Além disso, precisamos de inteligência emocional para administrar as frustrações de editais e festivais. É preciso amar muito o ofício.

André Hayato Saito é casado com Tati Wan — também co-produtora do curta, com quem tem dois filhos, um de 2 anos e quatro meses e outro recém-nascido, com duas semanas de vida.

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Escrito e dirigido por Saito e protagonizado por Melissa Uehara como Erika, Amarela foi produzido por Mayra Faour Auad, Gabrielle Auad e Ilda Santigo, da produtora MyMama Entertainment, e foi exibido em mais de 100 festivais, em 35 países. A história segue a adolescente Erika, uma jovem que tenta se desprender das tradições de sua família nipo-brasileira para torcer pelo Brasil na Copa de 1998, mas acaba sofrendo xenofobia, o que a fez encarar o dilema de não-pertencimento ao se ver em um lugar em que não é japonesa o suficiente para os japoneses, nem brasileira o suficiente para os brasileiros.

Onde assistir Amarela

Disponível no Globoplay, o curta de 15 minutos Amarela também será exibido no Circuito Spcine antes de sessões de O Agente Secreto neste domingo, 25 de janeiro. O Circuito Spcine passa por 29 salas de São Paulo, é gratuito e a programação completa pode ser conferida no site circuitospcine.com.br.

Horários e locais de sessões gratuitas de Amarela e O Agente Secreto no Circuito Spcine:

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25/01 – 15h30 – CEUs
25/01 – 18h – Centro Cultural Olido
25/01 – 18h30 CFC Cidade Tiradentes
25/01 – 19h Biblioteca Roberto Santos
25/01 – 19h30 – CCSP Jardim Suspenso (sessão ao ar livre)
25/01 – 19h30 – CCSP Sala Paulo Emilio

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