O governo brasileiro deu início a um processo que promete tensionar as relações comerciais com os Estados Unidos: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizou o uso da Lei da Reciprocidade Econômica como resposta ao tarifaço de 50% imposto por Donald Trump a produtos nacionais.
A medida aciona a Câmara de Comércio Exterior (Camex), que terá 30 dias para apresentar um parecer técnico sobre o caso. O Itamaraty deve comunicar oficialmente Washington ainda hoje.
Como mostrou na coluna Radar, do colega Robson Bonin, trata-se apenas do primeiro passo de um trâmite que pode levar de seis a sete meses. O aval de Lula, portanto, não significa retaliação imediata, mas a abertura de um processo formal, com consultas, análises técnicas e espaço para negociações diplomáticas.
O gesto de Lula tem dupla leitura. No plano político, é um recado de defesa da soberania — discurso reforçado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, que destacou que o país “não abre mão da sua soberania” e que espera que a iniciativa acelere o diálogo. Já no plano prático, o governo preserva margem para negociação, insistindo que o processo não fecha as portas para um entendimento com Washington.
A aposta é arriscada: caso as contramedidas sejam aplicadas, será a primeira vez que o Brasil usará a Lei da Reciprocidade. Sem histórico de eficácia, o instrumento pode tanto reforçar a posição brasileira em futuras disputas quanto aumentar a tensão com os EUA em um momento em que Brasília tenta se equilibrar entre Washington e Pequim.
O Brasil, assim, inicia a sua própria longa estrada: uma corrida que pode se estender por meses, cheia de obstáculos e incertezas. O desfecho, como na canção popular, ainda está em aberto e só o tempo dirá se haverá fôlego até o fim.