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Plano dos EUA para o petróleo da Venezuela é grave ameaça ao limite de 1,5°C do Acordo de Paris

O plano dos Estados Unidos para explorar as reservas de petróleo da Venezuela pode consumir até 13% do orçamento global de carbono restante necessário para limitar o aquecimento do planeta a 1,5°C, segundo uma análise exclusiva da consultoria ClimatePartner.

O dado reforça o alerta de que a expansão da produção em países com petróleo de alta intensidade de carbono pode empurrar o mundo para além dos limites considerados seguros pela ciência climática.

A Venezuela detém, ao menos no papel, as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo.

Se totalmente exploradas, essas reservas seriam suficientes para esgotar sozinhas todo o orçamento de carbono compatível com a meta de 1,5°C, definida pelo Acordo de Paris como limite para evitar os piores impactos das mudanças climáticas.

Embora esse cenário seja considerado improvável no curto prazo, devido ao estado precário da infraestrutura petrolífera venezuelana após anos de sanções e subinvestimento, o tema voltou ao centro do debate internacional após declarações do presidente dos EUA, Donald Trump.

Em meio a uma escalada política que incluiu a captura e transferência do presidente venezuelano Nicolás Maduro para Nova York, Trump incentivou grandes petroleiras a investir US$ 100 bilhões para reativar os campos do país.

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“Vamos extrair volumes de petróleo como poucos já viram”, afirmou o presidente a executivos do setor na última sexta-feira.

Um petróleo entre os mais sujos do planeta

A análise encomendada pelo Guardian à ClimatePartner simulou um cenário de aumento gradual da produção venezuelana: mais 500 mil barris diários até 2028, chegando a 1,58 milhão de barris diários entre 2035 e 2050. Mesmo abaixo do pico histórico de 3,5 milhões de barris/dia, registrado nos anos 1990, esse aumento isolado consumiria 13% do orçamento global de carbono restante.

O impacto é agravado pela natureza do petróleo venezuelano, classificado como pesado e “ácido”, com alta concentração de enxofre e consistência semelhante a piche. Esse tipo de óleo exige processos intensivos em energia tanto na extração quanto no refino, elevando significativamente as emissões associadas.

Estudo da S&P Global Platts Analytics identificou a Faixa do Orinoco, principal região produtora do país, como a área com maior intensidade de carbono entre grandes polos petrolíferos globais. Enquanto o campo norueguês de Johan Sverdrup emite cerca de 1,6 kg de CO₂ por barril equivalente, o petróleo do Orinoco chega a 1.460 kg de CO₂ equivalente por barril — quase mil vezes mais.

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O relatório conclui que se trata de uma produção “extrema”, com dificuldades evidentes de sobrevivência em um cenário global de restrições climáticas crescentes.

Pressão sobre metas climáticas globais

Para Hollie Parry, analista sênior da ClimatePartner, a decisão de expandir esse tipo de produção representa um risco sistêmico.

“Ampliar a extração de um dos petróleos mais intensivos em carbono do mundo consumiria cerca de 13% do orçamento global restante — o equivalente a quase uma década de emissões de toda a União Europeia, a partir de uma única expansão petrolífera”, afirma.

Segundo ela, a iniciativa “cristalizaria décadas de emissões elevadas exatamente no momento em que a ciência exige uma transição acelerada para fontes renováveis e soluções de baixo carbono”.

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A crítica é compartilhada por organizações ambientais. Para Mads Christensen, diretor executivo do Greenpeace Internacional, a tentativa dos EUA de reivindicar o petróleo venezuelano é “imprudente e perigosa”.

“O único caminho seguro é uma transição justa para fora dos combustíveis fósseis, que proteja a saúde, os ecossistemas e as comunidades, em vez de sacrificá-los por lucro de curto prazo”, diz.

Um dilema geopolítico e climático

O debate ocorre em um contexto mais amplo de disputa geopolítica por recursos naturais na América do Sul.

A aposta em combustíveis fósseis de alta emissão, portanto, entra em choque direto com compromissos climáticos assumidos por países desenvolvidos e com relatórios recentes do IPCC, que defendem a redução imediata da produção global de petróleo, gás e carvão para manter viva a meta de 1,5°C.

Ao colocar a Venezuela no centro de uma nova corrida petrolífera, os EUA reacendem não apenas uma crise diplomática, mas também um debate crucial sobre os limites físicos do planeta e o custo climático das decisões geopolíticas.

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