A identidade racial, de tempos em tempos, volta ao centro do debate público. O episódio mais recente a resgatar o tema foi a participação de Camila Pitanga num podcast, quando ela rejeitou o termo “mulata” ao ser questionada por Mano Brown. A repercussão ganhou força nas redes sociais com uma publicação sugerindo que ela teria mentido sobre suas origens, o que intensificou ainda mais a discussão. Mas quem determina a cor ou raça de alguém? Antes de definir, é preciso distinguir raça e etnia, como explica Alba Patrícia Passos de Souza, coordenadora do curso de Pedagogia da UFPI (Universidade Federal do Piauí) e especialista nos temas de relações étnico raciais e gênero.
“A categoria ‘raça’ não é entendida como biológica, mas uma produção social. Surge no século XIV com a ideia de raças superiores e inferiores – neste caso, o branco sendo superior ao negro. Esse racismo científico atravessou gerações e hoje é entendido como uma construção sociopolítica para organizar as relações de poder, de desigualdade e a questão da identidade”, explica Alba Patrícia à coluna GENTE. Já a cor da pele está relacionada ao fenótipo: o que está visível aos olhos, como pele, traços e cabelos.
No Brasil, esta definição se baseia na autodeclaração do indivíduo, de acordo com o critério do IBGE, dividido em categorias: brancos, pretos ou pardos. Durante o Censo, o cidadão se identifica da forma que quiser. “A autodeclaração é importante porque visa ao reconhecimento desse sujeito em relação ao seu grupo étnico”, pontua a especialista.
De acordo com o IBGE, a categoria preta é usada na intenção de “representar as pessoas de ascendência africana”. O significado da categoria pardo, por sua vez, já passou por algumas modificações ao longo das últimas décadas. Atualmente, são pardos aqueles que se identificam com a mistura de duas ou mais opções de cor, incluindo branca, preta, parda e indígena. “Um grande problema no Brasil é o não-lugar dos pardos. Em alguns pontos, são considerados negros, mas têm a possibilidade de não sofrer discriminação. O racismo no Brasil é interseccional. A cor marca você, mas há outros atravessamentos, como classe e gênero. Tudo isso marca de forma diferente cada sujeito”, pontua.
O post que intensificou a discussão sobre Camila Pitanga, compartilhado pela influenciadora Beatriz Bueno, trazia uma foto modificada da atriz com a afirmação de que ela nasceu loira e que seria fruto de uma traição: “suspeita-se que seu pai biológico seja o ex-marido da mãe”. Para a pedagoga, isso expõe a importância de se educar a sociedade. “É preciso de políticas públicas que nos eduque a olhar para o outro. Uma formação de professores e empresários para entender essa diversidade étnica, quem são as pessoas pretas, os pardos e por que pretos e pardos são considerados negros. É importante entender a autoidentificação como um processo que faz o sujeito resgatar sua história”, completa.