A segunda-feira (5) abriu o ano lembrando uma regra velha do dinheiro: quando a geopolítica engrossa, a bolsa muda o cardápio. Em vez de festa, entrou no radar o pacote clássico de tempos nervosos — defesa, tecnologia e energia.
No Mercado, o professor Vitélio Brustolin (Harvard/Universidade Federal Fluminense) resumiu o pano de fundo: os EUA vêm sinalizando, com ações e discurso, que querem priorizar a América do Sul e operar com uma lógica de “zonas de influência”, algo que ele comparou à divisão de áreas de interesse entre grandes potências em 1945. Na prática, a mensagem é simples (e nada tranquilizadora): o mundo está voltando a se organizar para conflito, não para conciliação.
Essa mudança não é só retórica. O termômetro está nos números: os gastos militares globais seguem em trajetória recorde, com 2024 marcado por uma alta forte — mais de US$ 2,7 trilhões, segundo dados compilados por institutos especializados.
E não é uma mania exclusiva de Washington: a Europa, que passou anos “terceirizando” a segurança, acelerou o passo.
Venezuela foi o gatilho; a tendência é maior que a Venezuela
No programa, a notícia do fim de semana foi a captura de Nicolás Maduro em uma operação americana — e o efeito imediato nos preços do petróleo foi, por enquanto, menos cinematográfico do que o roteiro sugeria. O Brent chegou a oscilar, mas sem choque instantâneo: afinal, como foi lembrado no ar, a Venezuela responde por uma fatia pequena da produção global.
O que apareceu com mais nitidez foi a reação “de manual” do mercado: ações ligadas a energia e defesa ganharam tração, com destaque para petroleiras americanas no pré-mercado, enquanto investidores também correram para ativos típicos de proteção (metais, por exemplo). Esse movimento é coerente com a leitura do economista Rodrigo Marques(Nest Asset): em ambiente de conflito, cresce a demanda por “seguro” — e segurança custa caro (em orçamento público e em prêmio de risco).
O novo normal: mais conflitos, mais custos, mais disputa por commodities
Brustolin foi direto ao ponto ao listar os tabuleiros que podem se acender ao mesmo tempo: Europa (pressão russa e rearmamento), Ásia-Pacífico (Taiwan, Japão, Coreia) e as consequências de uma política externa americana mais impositiva no entorno regional.
E o mundo real está corroborando esse clima: o número de conflitos ativos com participação de Estados aumentou em 2024, no maior patamar desde meados do século passado, segundo levantamento do UCDP (Uppsala).
Quando esse “novo normal” se instala, a economia sente por canais bem práticos:
- energia (qualquer ruído em oferta vira volatilidade de preços);
- cadeias de commodities (minérios críticos e “terras raras” viram peça de barganha);
- inflação e juros (risco geopolítico prolongado entra nos modelos de política monetária como incerteza persistente).
O economista André Galhardo (Análise Econômica) colocou uma lente importante: mesmo quando o petróleo não dispara na hora, o mercado começa a precificar o que pode mudar na dinâmica de oferta — especialmente se grandes consumidores (como a China) precisarem redesenhar rotas e fornecedores.
E o Brasil nisso tudo? Bem-vindo ao “clube dos recursos”
Aqui entra um ponto que muda o tom: o Brasil não está no centro do conflito, mas está no centro do mapa de interesses. Galhardo lembrou no programa que, além do petróleo, há o tema dos minerais críticos/terras raras — e o país tem peso relevante nessa conversa. Em mundo mais armado e mais tecnológico, quem controla insumo estratégico ganha poder(e também pressão diplomática).
No fim, 2026 começa com uma mensagem nada romântica: o “dividendo da paz” ficou para trás. E o investidor, que não faz minuto de silêncio para ninguém, já começou a reajustar portfólio como quem troca o guarda-chuva por capacete.