Quando o assunto é atrair para si os holofotes globais, expoentes do showbiz não encontram praticamente concorrência, à exceção de um estrato bem definido da população que também desfruta de fama: o dos jogadores de futebol. Até pouco tempo atrás, os dois universos movidos a bilionárias cifras seguiam caminhos paralelos, cada qual na sua arena. Mas uma onda recente vem promovendo uma curiosa e lucrativa fusão, que brota da necessidade de estrelas de cachês elevados em Hollywood (e outros sets) diversificarem o leque de investimentos, o que faz emergir uma improvável classe de cartolas de primeira viagem. Eles depositam altas somas na compra de clubes, especialmente de divisões inferiores das grandes ligas do planeta, que, além do dinheiro, conquistam público e mercado.
É verdade que, ainda na década de 1970, Elton John já havia percorrido tal trilha de forma pioneira ao arrematar seu time do coração, o britânico Watford, por algo em torno de 10 milhões de reais. Herdou um punhado de dívidas mas, apesar do enrosco financeiro, diz que saiu ganhando não pelo salto da equipe da quarta divisão à prestigiada Premier League inglesa em cinco anos. À época duelando contra uma profunda crise, o cantor encontrou na energia empenhada no investimento uma forma de interromper um ciclo pessoal de autodestruição. “Comprar o time salvou minha vida”, resumiu. Pois no cenário de hoje, embalado por números a cada dia mais estratosféricos, o que impulsiona os artistas é um horizonte de alto retorno financeiro e a chance de colar a imagem ao mais popular de todos os esportes. “A ideia é transformar o nome em fonte de receita e fortalecê-lo como marca”, explica Amir Somoggi, sócio da Sports Value, agência de marketing esportivo.

Entre os recém-chegados a esses gramados onde as promessas são vultosas, mas a queda pode se dar em igual medida, é Snoop Dogg. Em julho passado, ele virou sócio do Swansea City, do País de Gales, atualmente na segunda divisão inglesa. A quantia desembolsada pelo rapper americano não foi divulgada, nem deu tempo ainda de faturar muitas libras, mas o clube subitamente alcançou visibilidade para além do Reino Unido, fazendo rodar mundo afora o rosto de Snoop estampado na arquibancada e flashes do artista desfilando a mais recente versão do uniforme. E dá-lhe curtidas. Em dezembro, foi a vez de Martha Stewart, a apresentadora de TV que chegou a ser presa por evasão fiscal, abocanhar cota minoritária do mesmo Swansea, no qual também apostou o craque croata Luka Modric.
Esse mercado, com potencial de beneficiar tanto celebridades como clubes, também fez brilhar os olhos do ator Michael B. Jordan, agora sócio minoritário do AFC Bournemouth, e de Will Ferrell, que se uniu a Russell Crowe para ficar com parte do Leeds — ambos da elite do futebol inglês. “É interessante para os clubes, já que costumam ganhar projeção internacional, engajamento nas redes e novos patrocinadores”, diz o especialista Gabriel Henrique Marques, da consultoria GH Sports.
Poucos parecem ter entendido tão bem o jogo quanto Ryan Reynolds, astro de Deadpool, e Rob McElhenney, protagonista de It’s Always Sunny in Philadelphia — exemplo, aliás, que infla o otimismo dos demais pelo exitoso casamento entre palcos tão distintos. Em 2021, a dupla investiu o equivalente a 14 milhões de reais para adquirir o Wrexham, modesto clube da cidade de mesmo nome, encravada na bela paisagem montanhosa ao norte do País de Gales. Os neófitos dirigentes, que pouco palpitam no dia a dia do time, transformaram sua aventura em show com a série Welcome to Wrexham, exibida pelo Disney+. Treinos, tropeços e vitórias do time, até então relegado ao limbo da quinta divisão do campeonato, passaram a ser exibidos com ares de espetáculo. Resultado: além de os atores abocanharem dez Emmys, o maior prêmio da TV americana, o valor do clube pulou de 2,6 milhões de dólares para extraordinários 130 milhões. Isso deu um gás à equipe, que em campo cravou meteórica ascensão, escalando à série B do futebol inglês. “O time virou um verdadeiro produtor de conteúdo”, afirma Emanuel Ferreira, especialista em marketing esportivo.

Nestes tempos em que as redes fazem tudo reverberar (para o bem e para o mal), às vezes a bola dentro da rede importa até menos do que uma boa ideia bem empregada fora de campo para angariar simpatia e torcida. Um caso emblemático desta nova era é o do Angel City FC, time feminino da primeira divisão da liga feminina nos Estados Unidos, fundado por Natalie Portman, atriz laureada com um Oscar. Criado em 2022, o Angel construiu seu modelo de negócios atrelando seu escudo a ações filantrópicas: 10% da receita vai para projetos comunitários em Los Angeles, tudo sob a batuta de uma diretoria maciçamente feminina. O montante se volta para programas educacionais e incentivo ao esporte para meninas, abrangendo programas de inclusão social em áreas mais pobres. O público curte e, a cada nova bandeira agitada em prol de boas causas, o valor do clube vai subindo — até que se tornou o mais valioso do futebol feminino mundial, avaliado em 250 milhões de dólares, com a maior torcida de toda a NWSL. Detalhe: na última temporada, o time caiu de uma já mediana 8ª posição para a 11ª, mas ninguém deixou de vestir a camisa.
A tendência começa a pipocar aqui e ali no Brasil, por ora incipiente, mas de maneira já ilustrativa de que não basta ter um famoso na área com apetite para investir. O sertanejo Gusttavo Lima adquiriu 60% do Atlético Clube Paranavaí, equipe do interior do Paraná que disputa a segunda divisão do campeonato estadual. A muito celebrada aquisição, que trouxe à pequena, porém fiel torcida, esperança de uma reestruturação, ainda não trouxe o resultado esperado. No Rio de Janeiro, o rapper L7nnon segue em negociações para assumir o Olaria, tradicional clube da Zona Norte, há décadas longe da primeira divisão carioca. É preciso lembrar que pesam sobre as entidades esportivas brasileiras um extenso histórico de má gestão financeira, o que torna o business por aqui mais arriscado. “Movimentos mal calculados podem ser desastrosos para todos os envolvidos”, alerta o especialista Amir Somoggi. Como se sabe, para a bola entrar no gol, dentro e fora de campo, é preciso bem mais do que fama.
Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978