As cidades só existem porque as pessoas precisam se encontram e é no espaço compartilhado que o humano se reconhece. Ruas, praças e calçadas são grandes invenções urbanas – lugares onde o comum acontece, onde a convivência, incluindo a das diferenças, se manifesta; onde é possível enxergar no outro o espelho da própria ideia de sociedade. Ainda assim, muitas vezes, o espaço público é tratado como aquele que “sobra”: o que resta entre muros, prédios e asfalto. A cidade cresceu voltada para dentro, como se o valor estivesse no interior das construções, não nas frestas entre elas.
Recuperar o sentido desses lugares é um dos maiores desafios – e uma das maiores oportunidades – para o futuro urbano. O espaço público é o que a coletividade tem em comum, o chão onde se exercita a democracia cotidiana. É ali que se expressa o direito de circular, permanecer, descansar, brincar, encontrar, protestar. É também ali que se revela a desigualdade — quem pode ocupar e quem é afastado; quem se sente convidado e quem é constantemente expulso — e, por isso mesmo, onde a transformação pode começar.
Os benefícios do espaço público vão muito além da cidadania formal. Um ambiente bem cuidado melhora a saúde física e psicológica, estimula a economia local, fortalece os laços comunitários e amplia a sensação de segurança. Onde há gente, há vitalidade; onde há vitalidade, há valor. A praça cheia favorece o comércio; crianças brincando indicam tranquilidade; pessoas caminhando tornam o bairro mais seguro. O convívio é, ao mesmo tempo, causa e consequência de uma cidade viva. Quando se multiplicam os encontros casuais – aquele aceno rápido, a conversa de esquina, o olhar que reconhece –, a confiança no outro se reconstitui.
Mais do que investir em grandes obras, trata-se de reaprender a cuidar da escala humana. Observar como as pessoas usam os espaços, o que as faz permanecer, o que as afasta. Planejar calçadas generosas, travessias seguras, mobiliário confortável, sombras que aliviam o calor, bancos que convidam à pausa. Criar condições para a interação e o descanso, para o movimento e o acaso – aquilo que escapa ao planejamento, mas que dá sentido à vida urbana.
Os espaços públicos de qualidade são aqueles que acolhem diferentes idades, corpos, modos de viver e de se deslocar. São lugares que convidam à diversidade – e é justamente nela que reside sua força. Quando uma cidade garante que todos possam estar, permanecer e ser, ela se torna mais justa, mais interessante, mais vibrante. O desenho urbano tem poder: um banco pode iniciar uma conversa; uma árvore pode mudar o microclima de uma rua; um canteiro pode virar horta; uma calçada bem desenhada pode salvar vidas. Cada gesto de cuidado, por menor que pareça, produz efeitos em cadeia: sociais, econômicos e ambientais.
Nesse contexto, pequenas intervenções vêm mostrando que a transformação é possível – e, muitas vezes, em soluções transitórias e de baixo custo. Em São Paulo, os Programas Ruas Abertas e Repensando Espaços Públicos mostram como vias dedicadas prioritariamente a automóveis podem ser transformados em áreas de convívio e lazer para pessoas.
Em Medellín, na Colômbia, o urbanismo social tem promovido o espaço e o edifício público como motores de transformação urbana. Essa abordagem foi fundamental para que a cidade, antes conhecida como a mais violenta do mundo, passasse do medo à esperança. Ruas, calçadas, praças, parques e equipamentos públicos se tornaram catalisadores de educação, ciência, empreendedorismo, esporte, recreação e cultura – compondo um generoso sistema conector entre os bairros.
Assim, por meio de um programa de passeios urbanos, Medellín vem recuperando a qualidade de ruas emblemáticas e de áreas de valor ambiental, como as encostas, transformando-as em parques lineares. A iniciativa também busca consolidar itinerários locais, conectando-os à mobilidade metropolitana e fortalecendo a cidade das pessoas – uma cidade sensível à água, à biodiversidade e às urgências da crise climática. Os projetos articulam espaço público, mobilidade com prioridade ao transporte coletivo e cultura urbana com ampla participação cidadã, reforçando valores ambientais, ecológicos e paisagísticos.
Outro pilar essencial é o programa de equipamentos educativos de bairro, que afirma a educação como uma escolha política. Inspiradas no conceito de escola aberta – sem muros e sem grades –, essas estruturas criam conexões físicas e visuais com o entorno, estimulando o aprendizado, o sentimento de pertencimento e a apropriação dos espaços pela comunidade.
Essas ações, simples e potentes, mostram que o espaço urbano é um laboratório dinâmico, onde se experimentam e se aprendem novas formas de viver juntos. Cuidar do espaço público não é luxo – é uma necessidade coletiva. É ali que se constroem o pertencimento, a confiança e o encontro; onde a cidade deixa de ser apenas infraestrutura e se transforma em comunidade. O espaço público é o que nos lembra que viver em cidade é, antes de tudo, um exercício de convivência – e é nele que a cidade se torna viva, humana e inteira.
Juan Sebastián Bustamante Fernández é coordenador do Núcleo Arquitetura e Cidade do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper
Heloisa Loureiro Escudeiro é coordenadora-adjunta do Núcleo Arquitetura e Cidade do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper.