Pouco antes de ser levado preso pelos Estados Unidos, o agora presidente deposto da Venezuela, Nicolás Maduro, deu uma longa entrevista à emissora TeleSur no Ano-Novo. No sábado, 3, o líder chavista e a primeira-dama Cilia Flores foram levados para serem julgados por supostos crimes relacionados a narcoterrorismo no tribunal de Nova York. A operação que levou à queda de Maduro incluiu bombardeios a Caracas, responsáveis pela morte de 40 pessoas, de acordo com o jornal americano The New York Times.
Na entrevista, Maduro aparece dirigindo pela capital enquanto responde a perguntas do jornalista espanhol Ignacio Ramonet. O venezuelano toca em temas espinhosos, como em que pé estavam as conversas com os EUA. Em determinado momento, Maduro diz que estava disposto a negociar um acordo de combate ao narcotráfico junto ao governo americano, mas voltou a afirmar que o plano de Washington era forçar uma mudança de poder em Caracas para ter acesso a recursos naturais venezuelanos, especialmente o petróleo.
“O que eles buscam? É evidente que buscam se impor por meio de ameaças, intimidação e força”, alegou Maduro, acrescentando mais tarde que os dois países deveriam começar “a conversar seriamente, com dados em mãos”.
“O governo dos EUA sabe, porque já dissemos isso a muitos de seus porta-vozes, que se eles quiserem discutir seriamente um acordo para combater o narcotráfico, estamos prontos”, continuou ele. “Se eles quiserem petróleo, a Venezuela está pronta para investimentos dos EUA, como aconteceu com a Chevron, quando eles quiserem, onde eles quiserem e como eles quiserem.”
O bate-papo ocorreu pouco dias depois da primeira operação da CIA em território venezuelano — um assunto que Maduro se recusou a comentar. O ataque, confirmado pelo presidente americano, Donald Trump, na segunda-feira 29, consistiu em “uma grande explosão na área do cais onde carregam os barcos com drogas”. O republicano indicou que a ofensiva se tratava de um desenrolar dos ataques a barcos que supostamente transportavam drogas no Caribe e Pacífico, que deixaram ao menos 115 tripulantes mortos.
O então presidente da Venezuela também informou que não conversa com Trump desde 12 de novembro. A ligação foi descrita como “agradável” por Maduro, embora tenha ponderado: “Desde então a evolução não tem sido agradável. Vamos esperar”, disse. Em outro momento, ele culpou a Colômbia pela produção de cocaína na região e argumentou que, na verdade, os venezuelanos são “vítimas do tráfico de drogas colombiano”.
“Toda a cocaína que circula nessa região é produzida na Colômbia, toda ela, toda a cocaína. Somos vítimas do tráfico de drogas colombiano, não de hoje, mas de décadas”, afirmou Maduro a Ramonet.
O Relatório Mundial sobre Drogas de 2025 indica que o fentanil — principal responsável pelas overdoses nos EUA — tem origem no México, e não na Venezuela, que praticamente não participa da produção ou do contrabando do opioide para o país. O documento também aponta que as drogas mais usadas pelos americanos não têm origem na Venezuela — a cocaína, por exemplo, é consumida por cerca de 2% da população e vem majoritariamente de Colômbia, Bolívia e Peru.
+ Após ataque à Venezuela, Trump fala em realizar ação militar na Colômbia
Prisão de Maduro e Cilia
Dois dias após a entrevista, Maduro seria acordado de supetão por uma operação americana em Caracas. Trump disse à emissora americana Fox News no sábado 3 que assistiu ao vivo à captura, transmitida por agentes que participaram da missão. Segundo reportagem da emissora CNN, Maduro e a primeira-dama Cilia Flores foram arrastados do quarto em que estavam por militares americanos durante a madrugada.
À agência de notícias Associated Press, o líder do partido governista venezuelano, Nahum Fernández, disse que ambos estavam na residência dentro do complexo militar do Forte Tiuana. Agora, os dois estão presos no Brooklyn. Ambos comparecerão à audiência marcada para as 12h locais (14h em Brasília) perante o juiz distrital Alvin K. Hellerstein. Não se sabe se algum deles constituiu advogado ou se apresentará declaração de culpa ou inocência.
Em um novo indiciamento divulgado no sábado, os promotores de Manhattan alegam que Maduro supervisionou pessoalmente uma rede de tráfico de cocaína patrocinada pelo Estado, que tinha parcerias com alguns dos grupos narcotraficantes mais violentos e prolíficos do mundo, incluindo os cartéis mexicanos de Sinaloa e Los Zetas, o grupo paramilitar colombiano FARC e a gangue venezuelana Tren de Aragua.
A acusação contra Maduro na Corte do Distrito Sul de Nova York coloca como réus, além do ditador deposto e sua esposa, o filho do líder venezuelano, Nicolás Maduro Guerra, o ministro do Interior, Diosdado Cabello, e Hector Guerrero Flores, conhecido no Niño Guerrero e líder do Tren de Arágua.
Segundo o documento, Maduro “se associou a seus cúmplices para usar sua autoridade obtida ilegalmente e as instituições que corroeu para transportar milhares de toneladas de cocaína para os Estados Unidos”. A peça de acusação relembra a controversa trajetória do ditador e imputa a ele, por exemplo, papel de ter movimentado carregamentos de cocaína sob proteção da polícia venezuelana quando era membro da Assembleia Nacional, ter fornecido passaportes diplomáticos a notórios traficantes de drogas e ter facilitado a cobertura diplomática para que criminosos mexicanos pudessem repatriar dinheiro do crime na Venezuela.
“Maduro Flores permite que a corrupção alimentada pela cocaína floresça para seu próprio benefício, para o benefício dos membros de seu regime governante e para o benefício de seus familiares”, disse o procurador dos Estados Unidos Jay Clayton.
O documento ganha relevo porque é esta denúncia criminal formal, conhecida no sistema americano como “indictment”, que autoriza acusações criminais graves e a expedição de mandados de prisão internacionais. Acusado de narcoterrostimo, o venezuelano passa a ser enquadrado como risco à segurança nacional dos Estados Unidos com base em uma lei americana criada após os ataques de 11 de setembro de 2001. É na mescla de direito penal, direito internacional e risco à segurança nacional que autoridades do governo norte-americano se fiam para julgar e condenar Maduro.
+ Os políticos e militares que herdaram o poder na Venezuela após deposição de Maduro
Escalada das tensões
No final de outubro, Trump revelou que havia autorizado a CIA a conduzir operações secretas dentro da Venezuela, aumentando as especulações em Caracas de que Washington quer derrubar o ditador Nicolás Maduro. Fontes próximas à Casa Branca afirmam que o Pentágono apresentou a Trump diferentes opções, incluindo ataques a instalações militares venezuelanas — como pistas de pouso — sob a justificativa de vínculos entre setores das Forças Armadas e o narcotráfico.
Os EUA acusam Maduro de liderar o Cartel de los Soles — designado como organização terrorista estrangeira em novembro — e oferecem uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levem à captura do chefe do regime chavista. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, também foi acusado por Trump de ser “líder do tráfico de drogas” e “bandido”. Em paralelo, intensificam-se os ataques a barcos de Organizações Terroristas Designadas, como define o governo americano, no Caribe e no Pacífico. Ao menos 83 tripulantes foram mortos.
Em novembro, militares americanos de alto escalão apresentaram opções de operações contra Caracas a Trump. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, e outros oficiais entregaram planos atualizados, que incluíam ataques por terra. Segundo a emissora CBS News, a comunidade de Inteligência dos EUA contribuiu com o fornecimento de informações para as possíveis ofensivas na Venezuela, que variam em intensidade.
O planejamento militar ocorre em meio à crescente mobilização militar americana na América Latina e ao aumento das expectativas de uma possível ampliação das operações na região, em atos considerados “execuções extrajudiciais” pela Organização das Nações Unidas (ONU). Além do porta-aviões, destróieres com mísseis guiados, caças F-35, um submarino nuclear e cerca de 6.500 soldados foram despachados para o Caribe, enquanto Trump intensifica o jogo de quem pisca primeiro com o governo venezuelano.
Os incidentes geraram alarme entre alguns juristas e legisladores democratas, que denunciaram os casos como violações do direito internacional. Em contrapartida, Trump argumentou que os EUA já estão envolvidos em uma guerra com grupos narcoterroristas da Venezuela, o que torna os ataques legítimos. Autoridades afirmaram ainda que disparos letais são necessários porque ações tradicionais para prender os tripulantes e apreender as cargas ilícitas falharam em conter o fluxo de narcóticos em direção ao país.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na última sexta-feira 14 revelou que apenas 29% dos americanos apoiam o uso das Forças Armadas dos Estados Unidos para matar suspeitos de narcotráfico, sem o devido processo judicial, uma crítica às ações de Trump. Em um sinal de divisão entre os apoiadores do presidente, 27% dos republicanos entrevistados se opuseram à prática, enquanto 58% a apoiaram e o restante não tinha opinião formada. No Partido Democrata, cerca de 75% dos eleitores são contra as operações, e 10% a favor.