“Que você viva cem anos.” A frase, dita por Jacqueline Kennedy em 1966, soou como uma bênção e um presságio. Valentino Garavani não chegou ao centenário, mas atravessou quase um século como poucos, transformando tecido em poder, cor em símbolo, principalmente, moda em permanência. Morto nesta segunda-feira, 19 de janeiro, em Roma, aos 93 anos, ele se despede como um dos últimos grandes mestres da alta-costura – talvez o último a entender a elegância como legado e destino, não como uma mera tendência.
Valentino amava a beleza com uma devoção quase religiosa. “Não é culpa minha”, dizia, sem qualquer ironia. Esse amor guiou uma trajetória que nunca se rendeu ao ruído do novo pelo novo. Formado em Paris, lapidado pela disciplina da Chambre Syndicale e pelas lições de Jean Dessès e Guy Laroche, ele voltou à Itália no fim dos anos 1950 para construir, em Roma, uma casa que se tornaria sinônimo de glamour absoluto. Ao lado de Giancarlo Giammetti — parceiro de vida e de visão — criou uma marca que não apenas vestiu uma elite global, mas moldou o imaginário do luxo italiano no século XX.
Vermelho como poder feminino
Foi Valentino quem cristalizou o vestido vermelho como arquétipo de poder feminino. O Valentino Red, criado em 1959 e inspirado na intensidade dramática da ópera “Carmen”, de Georges Bizet, deu luz a figurinos de mulheres maravilhosas como Jacqueline Kennedy Onassis (1929-1994), sua maior musa, Elizabeth Taylor (1932-2011) e Sophia Loren. Décadas depois, já nonagenário, ele ainda surpreenderia o mundo ao lançar o Pink PP, outra tonalidade só sua, desenvolvido em parceria com a Pantone Color Institute — empresa referência das cores utilizadas nas indústrias têxtil e gráfica, provando que tradição e invenção não são opostas quando se tem convicção estética – algo que ele tinha de sobra.
Falando, porém, de alta-costura, maior especialidade de Valentino – era feminina sem ser frágil, teatral sem ser excessiva, clássica sem ser previsível. De Linhas limpas, com chiffon em movimento, e laços e flores em um eterno diálogo obstinado pela busca da harmonia. É bom entender: ele não queria ditar tendências, muito menos capturar o espírito do tempo. Queria algo mais ambicioso e mais simples: fazer com que suas mulheres ficassem lindas. “Eu sei o que as mulheres querem: ser bonitas”, afirmou no documentário “Valentino: The Last Emperor”. Não como submissão a um padrão, mas como direito.
Esse entendimento fez dele o estilista de confiança de primeiras-damas, princesas, estrelas de Hollywood e mulheres que precisavam, em momentos decisivos, de uma armadura feita de seda. Do vestido de renda usado por Jackie Kennedy em seu casamento com Aristóteles Onassis ao preto e branco de Julia Roberts no Oscar, passando pelo amarelo de Cate Blanchett e pelo drapeado de Elizabeth Taylor, esteve presente nos instantes em que a imagem vira história.
“Valentino foi um revolucionário nos anos 1970 e continua sendo uma grande referência”, disse o estilista Reinaldo Lourenço a VEJA. “Há décadas ele consegue expressar o novo e a beleza sem perder o glamour e o tom vanguardista que o tornaram um exemplo para todos.” Não é exagero. Em um mundo cada vez mais apressado, ele insistiu na lentidão do feito à mão, na precisão do corte, na ideia de que o luxo verdadeiro resiste ao tempo.
O último Imperador
Chamado de “o último imperador”, o criador governou pela consistência. Aposentou-se das passarelas sem ruído, deixando uma maison capaz de se reinventar sem trair sua essência. Sua ausência, agora, encerra uma era em que o costureiro era maior do que a marca, e a elegância, um valor completamente inegociável.
Talvez Jackie estivesse certa. Cem anos seriam pouco para um mestre que ensinou gerações a olhar para a mulher com reverência. E se alguém, afinal, sabia o que as mulheres queriam, era ele: ser bonitas. Valentino fez disso um legado eterno.
