O mundo sempre mudou. Mudou com a Revolução Industrial. Mudou com a urbanização. Mudou com a tecnologia.
Mas, nos últimos anos, algo ficou diferente. Depois da pandemia, comecei a ouvir a mesma frase em contextos muito distintos — de executivos a professores, de equipes inteiras a pacientes individuais: “A forma como eu vivia não funciona mais. Mas eu não sei o que fazer no lugar.”
Não era uma queixa sobre o mundo. Era uma sensação interna de desencontro, sem nome.
Muita coisa mudou por fora: trabalho, ritmo, tecnologia, relações, expectativas.
Mas, por dentro, havia confusão, exaustão, uma sensação de estar carregando peso demais.
O cérebro humano não foi feito para viver em mudança contínua. Ele foi moldado para proteger, simplificar, prever.
Quando as mudanças externas se acumulam rápido demais — crises globais, instabilidade econômica, guerra, Inteligência Artificial — o cérebro tenta fazer o que sabe: se agarrar ao conhecido. Mesmo quando o conhecido já não cabe.
É por isso que tantas pessoas hoje permanecem em trabalhos que adoecem, relações que se esvaziaram, rotinas que perderam sentido. Não porque são fracas. Mas porque o cérebro prefere um porto confortável a um mar desconhecido.
Esse momento interno — em que a vida como ela é já não serve, mas a próxima versão ainda assusta — tem um nome na psicologia: transição.
Transição não é o que muda por fora. É o que precisa se reorganizar por dentro quando a mudança externa já aconteceu. E é exatamente aí que a maioria de nós trava.
Vejo isso com frequência no consultório. Pessoas que sabem que algo precisa terminar, mas fazem de tudo para não sustentar esse fim.
Trabalham mais. Dormem menos. Bebem mais. Ou fazem o oposto: se anestesiam, se retraem, congelam.
Essas estratégias aliviam o desconforto no curto prazo. Mas têm um custo alto no longo.
Lembro de uma história muito próxima de mim.
Por quase dois anos, minha irmã esteve profundamente infeliz no trabalho. Era uma escola onde havia crescido profissionalmente, onde começou como professora e chegou à liderança. Durante muito tempo, foi um sonho. Mas mudanças internas na instituição criaram conflitos constantes, desalinhamento de expectativas e um desgaste crescente.
Diante do medo de perder o que conhecia, ela fez o que aprendemos cedo a fazer quando estamos ameaçados: trabalhou mais. Empurrou os limites. Tentou “dar conta”. Por fora, parecia força. Por dentro, era exaustão. Vieram a ansiedade, noites sem dormir, um atendimento hospitalar em que achou que ia morrer. Os sinais estavam todos ali. Algo precisava terminar.
Mas a transição foi evitada até onde deu.
Dias antes do Natal, ela foi demitida. Ligou para mim chorando e disse: “Eu sabia que ia acontecer. Mesmo assim, dói.”
Dói porque toda transição exige uma perda real. Algo precisa morrer antes que algo novo possa começar.
Quando disse a ela “parabéns”, não foi crueldade. Foi reconhecer duas verdades ao mesmo tempo: a dor era real e aquele fim era necessário.
Muitos de nós começamos o ano exatamente nesse lugar. Sabendo que a vida como está não cabe mais. Mas tentando, ainda assim, torná-la suportável.
O problema não é mudar externamente. É não atravessar a transição interna necessária para o seu desenvolvimento.
Ao longo deste ano, quero falar com você sobre isso aqui. Não sobre metas rápidas, mas sobre o que sustenta mudanças reais.
Na próxima coluna, vou falar sobre o que costumamos fazer quando a transição começa a incomodar — e porque essas reações, embora compreensíveis, acabam nos mantendo presos.
Por ora, deixo uma pergunta simples: o que, na sua vida, já não funciona, mas você ainda tenta salvar?
Se esse texto tocou algo que você está vivendo, a conversa continua fora do papel. Estou no Instagram @luanamarques.phd, onde discuto ciência psicológica aplicada à vida real — sem atalhos e sem romantização. E no meu livro Viver com Ousadia, aprofundo como atravessar transições sem se perder de si mesmo.
Nos vemos na próxima semana.