A decapitação do governo da Venezuela no sábado, dia 3, transformou os Estados Unidos no mais novo vizinho do Brasil, com 2.200 quilômetros de fronteira física e a um gesto da interferência nas eleições de 2026.
Para além das centenas de dúvidas sobre o futuro da Venezuela sem Nicolás Maduro, a operação americana traz a certeza de que, sob o governo Donald Trump, a América do Sul é parte dos interesses americanos. Ponto. E o Brasil terá de conviver com este novo fato.
Não há pena por Maduro em Brasília. Em dezembro, depois de conversa telefônica com Trump, o presidente Lula da Silva alertou Maduro de que a pressão naval sobre a Venezuela era séria. Em novembro, o empresário Joesley Batista havia se reunido com Nicolás Maduro e sugerido a sua renúncia para evitar uma interferência americana. Maduro tinha uma oferta de exílio na Turquia ou nos Emirados Árabes e sabia dos riscos que estava tomando.
Para além dos protestos nos organismos diplomáticos, o que preocupa o governo Lula é o precedente. Uma coisa é Trump ter uma preferência política, como fez ao condicionar um empréstimo à Argentina à vitória de Javier Milei nas eleições legislativas de novembro — o que é ruim, mas faz parte do jogo —, outra é usar seu poderio militar para impor os interesses americanos.
Se a América do Sul passa a ser não apenas uma zona de influência americana, mas também um território no qual o uso da força é opção válida, todo o esforço do Brasil como potência regional não vale um níquel de dólar. A estratégia brasileira de ter fichas ao mesmo tempo na China, Europa, EUA e América do Sul está ameaçada.
A tradição diplomática do Brasil, que desde o governo Geisel, nos anos 1970, deixou o alinhamento automático com os EUA e, desde Sarney, nos anos 1980, se baseia na defesa do direito internacional e do multilateralismo, passará a ser um quebra-cabeça de como se relacionar com os EUA. Pode dar certo, como depois da “química” entre Trump e Lula no episódio do tarifaço, mas passa agora a ser um projeto em construção.
Num mundo em que as normas internacionais têm menos peso que a relação pessoal entre os presidentes, o Palácio do Planalto terá de colocar a reação dos EUA na equação de decisões como as regras eleitorais para as plataformas digitais, da exploração das reservas de terras raras, dos investimentos da China em carros elétricos ao acordo comercial do Mercosul com a União Europeia e, particularmente, como agir com os Brics.
Primeira intervenção direta dos Estados Unidos na América do Sul desde o golpe militar do Chile, em 1973, a ação militar deixou pelo menos 80 mortos, segundo o jornal The New York Times.
Em entrevistas no sábado e no domingo, o presidente Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio foram transparentes sobre a prioridade de as companhias de petróleo americanas retomarem os campos da Venezuela e da possibilidade de isso ocorrer sem mudança do regime, por meio da agora nova presidente Delcy Rodríguez.
Trump primeiro:
“Sob nossa nova estratégia de segurança nacional, o domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado. Não vai acontecer. Sob a administração Trump, estamos reafirmando o poder americano de uma forma muito poderosa em nossa região.”
“Nossas grandes empresas de petróleo dos Estados Unidos vão gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura gravemente danificada e começar a gerar lucro.”
“Ela (a presidente interina Delcy Rodríguez) está disposta a fazer o que for preciso.”
“Ela (a líder de oposição, María Corina Machado) não tem respeito do país.”
“Estamos prontos para lançar um segundo ataque, muito maior, se necessário.”
“Não temos medo de enviar tropas para ocupar território venezuelano.”
“Vamos governar a Venezuela até o momento em que pudermos.”
Maduro é um ditador desprezível, mas o trauma com o desastre da guerra do Iraque fez os americanos reagirem mal à ação na Venezuela. Trump sempre se destacou dos republicanos típicos por repudiar o papel dos EUA como polícia do mundo, e mesmo para o MAGA seria difícil defender soldados americanos em solo estrangeiro. Como escreveu o jornal The New York Times, “uma lição dominante da política externa dos EUA no último século é que tentar derrubar até mesmo o regime mais deplorável pode piorar a situação. Os Estados Unidos passaram 20 anos fracassando na tentativa de criar um governo estável no Afeganistão e substituíram uma ditadura na Líbia por um Estado fragmentado. As consequências trágicas da Guerra do Iraque, em 2003, continuam a assolar os EUA e o Oriente Médio”.
No domingo, dia 4, em entrevista à CBS, Marco Rubio corrigiu a rota sobre a frase de Trump:
“A Venezuela não é a Líbia, nem o Iraque ou o Afeganistão. A nossa missão aqui é muito diferente. Não estamos apenas enfrentando o regime, mas o que constitui uma ameaça aos interesses dos Estados Unidos.”
“Se (a presidente Delcy Rodríguez) não tomar as decisões certas, os Estados Unidos manterão diversas ferramentas de pressão para garantir a proteção dos nossos interesses.”
“(O bloqueio naval) permanece em vigor, e essa é uma tremenda alavancagem que continuará a existir até vermos mudanças, não apenas para promover o interesse nacional dos Estados Unidos, que é a nossa prioridade número 1, mas também que levem a um futuro melhor para o povo da Venezuela.”
“Vamos julgar tudo pelo que (os venezuelanos) fizerem, e vamos ver o que fazem.”
É corrente nos meios diplomáticos a suspeita de que Delcy Rodríguez e parte do establishment venezuelano concordaram com a operação americana. Entre os que trabalham por um chavismo sem Maduro estariam seu irmão, o presidente do Congresso, Jorge Rodríguez, e o ministro do Interior e braço político do chavismo histórico, Diosdado Cabello. Nas conversas entre Marco Rubio e Delcy Rodríguez, os EUA teriam concordado que o poder não será transferido nem para Edmundo Gonzales, que venceu as eleições presidenciais de julho, e muito menos para a prêmio Nobel María Corina Machado. Rubio teria sido convencido de que a posse de um dos dois geraria um clima de guerra civil que atrapalharia a retomada da produção de petróleo.
A dúvida é como vai se comportar o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López. No cargo desde outubro de 2014, quando resistiu à tentativa de golpe contra Hugo Chávez, Padrino comanda uma tropa de 120 mil homens, sendo mais de 1.200 generais, proporcionalmente um recorde mundial. Não se pode esquecer que a Venezuela vive uma ditadura militar. Oficiais comandam da estatal petrolífera PDVSA ao trânsito, com a competência que o Brasil conheceu no governo Bolsonaro.
A Venezuela concentra a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, com capacidade estimada em cerca de 303 bilhões de barris, e, no governo Chávez, chegou a retirar 3,7 milhões de barris por dia, em 1997.
Décadas de falta de investimento e má gestão fizeram com que a produção de petróleo da Venezuela caísse para menos de 1 milhão de barris por dia. Como lembrou a revista britânica The Economist, “a Venezuela também carece de nafta — um diluente necessário para tornar seu petróleo superviscoso transportável —, que não chega mais da Rússia. A menos que o bloqueio seja suspenso, a produção da Venezuela terá de ser reduzida ainda mais”. Serão necessários dez anos para a Venezuela voltar a ser um dos dez maiores produtores. A permanência dos EUA na fronteira norte do Brasil promete ser longa.