O aiatolá Ali Khamenei está se escondendo num bunker, empresas aéreas europeias suspenderam voos ao Oriente Médio e forças americanas estão se consolidando na região, com o redirecionamento do porta-aviões Abraham Lincoln para esse teatro de operações – lembrando que só um gigante desses, com seu cortejo de embarcações de apoio, tem mais poder de fogo do que países inteiros. O regime dos aiatolás imagina ter alcançado uma vitória, mas o clima de alta tensão continua e a revolta popular é enorme. Mesmo sem internet, a população se comunica e todos acabam entendendo as dimensões atrozes da repressão, sendo que algumas fontes falam em 36,5 mil mortos.
Pensem nesse número: forças de segurança, principalmente dos Guardiões da Revolução e da milícia civil Basij, os mais doutrinados, saíram às ruas e mataram 36 mil pessoas, muitas executadas com tiros na testa ou na nuca. Seria o maior número de civis mortos no menor espaço de tempo de todo o período do pós-guerra.
Feridos levados a hospitais foram arrastados para a cadeia ou até fuzilados sumariamente nas macas. Vítimas abrigadas em casas e apartamentos de pessoas comuns que abriam as portas para escondê-las tinham que ficar em silêncio, mesmo com ferimentos a bala, para que os repressores não ouvissem seus gemidos. Sem internet, médicos voluntários tiveram que aprender uma nova forma de organização para atender, em segredo, os feridos fora dos hospitais. A organização silenciosa desses profissionais agora é a principal fonte de informação sobre a quantidade avassaladora de mortes.
Segundo duas fontes ouvidas pelo New York Times, a ordem de atirar para matar, “sem piedade”, partiu diretamente do aiatolá Khamenei, o líder supremo. Aos 86 anos, ele ainda tem ânimo para mandar massacrar seu próprio povo impiedosamente. Sabe muito bem que o respeito de que desfrutava como autoridade religiosa desabou por completo. Não pode deixar de ter ouvido o brado vindo das ruas: “Marg bar Diktator” – Morte ao ditador.
Essa enorme revolta continua pulsando. Muitos iranianos ainda esperam uma intervenção dos Estados Unidos ou até de Israel – o país a que foram ensinados a odiar desde que estavam na barriga das mães.
ÓDIO INTENSO
Muitas manifestações foram pacíficas, mas muitas também refletiram uma verdadeira insurreição popular, com ataques a prédios públicos, quartéis dos Guardiões da Revolução e até mesquitas, entendidas como símbolos do regime teocrático. Segundo porta-vozes do regime, mais de 200 integrantes das forças de segurança foram mortos – o número, evidentemente, pode ser muito maior e há indícios de que vítimas civis estão sendo obrigadas a dizer que eram milicianos do Basij para inflar artificialmente os números do lado do regime.
Donald Trump ouviu os apelos de aliados árabes e também de Israel para não mandar ajuda nem reagir militarmente, como havia prometido aos manifestantes. A suspensão do enforcamento de condenados por protestar foi o pretexto para a reação cautelosa.
Os árabes têm medo de que o Irã retalie um ataque americano bombardeando suas instalações petrolíferas, com as previsíveis consequências para a economia mundial. Israel pediu mais tempo para se organizar – mas é voz corrente que seus líderes, civis e militares, estão dormindo de botas. Ou seja, preparados para emergências a qualquer momento. Também estão preocupados com atritos no relacionamento com os Estados Unidos, por causa de Gaza – e já há fontes dizendo anonimamente que Steve Witkoff, o enviado especial de Trump, é um “lobista do Catar”.
Poderá a população iraniana se revoltar de novo? O ódio é intenso e iranianos que conseguiram fugir para o exterior dizem que voltariam a protestar, mesmo sabendo das consequências. Ou talvez mais revoltados ainda por causa delas.
A situação continua a ser de alta instabilidade, apesar das atitudes de desafio de dirigentes do regime. O aiatolá Khamenei está num bunker e seu filho número três, Masoud, assumiu algumas das funções públicas dele.
SOLUÇÃO VENEZUELANA
O filho que ele preparava para ser seu sucessor, num acinte aos princípios do islamismo xiita, Mojtaba, também está dando um tempo. Ou talvez esteja ocupado em transferir mais dinheiro para o exterior. Segundo fontes exiladas, figurões do regime transferiram para Dubai e outras praças amigas 1,5 bilhão de dólares quando não sabiam se as forças da repressão conseguiriam sufocar a revolta popular. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, confirmou que houve transferências em massa.
Depois de “convencer a si mesmo”, como disse, a não atacar o Irã, poderá Trump mudar de ideia? Muito depende da disposição dos iranianos de voltar às ruas, mesmo já sabendo da brutalidade da repressão, testemunhada por milhares de parentes de vítimas que visitaram necrotérios onde duas ou três camadas de mortos em sacos pretos se empilhavam.
Poderia haver uma solução à la venezuelana, em que uma figura central é removida e as demais são “convencidas” a colaborar (no caso de Caracas, com quinze minutos de prazo para decidir se fariam isso, segundo contou a presidente interina Delcy Rodriguez).
São situações inteiramente diferentes. Os interinos de Nicolás Maduro não tinham o sangue de 36 mil mortos nas mãos, por mais que tenham destruído o país. O Irã passou totalmente do ponto de uma solução interna rumo à transição – e seus figurões sabem muito bem disso. O que pode acontecer com chefões de um regime que, depois dessa matança coletiva, ainda deram ordens para que cemitérios não aceitassem sepultar corpos, obrigando familiares a enterrar seus mortos à beira de estradas? “Morte ao ditador” ecoa por todo o país, à espera de uma chance para que o grito de revolta volte a se levantar das ruas.