No final do século 18, nos primeiros anos dos Estados Unidos independente, na derrocada da Revolução Francesa e o surgimento de Napoleão Bonaparte, o advogado e banqueiro Alexander Hamilton e o militar espanhol-venezuelano Francisco de Miranda trocaram cartas sobre o futuro do continente. Ex-oficial do Exército espanhol e convertido à insurgência, Miranda defendia que os Estados Unidos (e com o primeiro presidente americano George Washington à frente) liderassem um movimento de independência sobre as colônias do continente. Com a oposição do então presidente dos EUA, John Adams, e a morte de Hamilton em um duelo, Miranda terminou encontrando seu libertador no venezuelano Simón Bolívar, mas o episódio contado pelo historiador e professor de Yale Greg Grandin no seu novo livro America, America é revelador de como os EUA foram um modelo paras futuras novas repúblicas ao Sul do rio Grande.
Esta simpatia, conta Grandin, fez com que mesmo a infame Doutrina Monroe de 1823 fosse inicialmente saudada como positiva, por ser um muro contra as pressões europeias. Demorou algum tempo para os demais países entenderem que o lema “América para os americanos” se referia aos Estados Unidos e não aos habitantes de todo o continente. O México sentiu primeiro. A realidade só se fez sentir com a colonização, insurgência, independência e anexação do Texas como prova do destino manifesto expansionista dos EUA. As dezenas de intervenções diretas e indiretas dos EUA no continente mostram que a ação militar de Donald trump na Venezuela é a regra, não a exceção.
O livro é ambicioso. Em 758 páginas, cobre 500 anos de história do continente, do frade Bartolomé de Las Casas no século XVI à Guerra Fria de Richard Nixon. Original, Grandin tenta explicar os EUA não pela via tradicional, como uma república formada em oposição à Europa, mas na sua relação de imposição pela força, racismo e exploração de recursos naturais do resto do continente.
Grandin acerta ao mostrar como parte da identidade da América Latina foi moldada pelo conflito de aceitação e rejeição dos EUA. O antiamericanismo e pró-americanismo, diz Grandin, são faces de países que tentam ser aceitos pelos Estados Unidos como iguais e nunca conseguem.
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America, América: A New History of the New World, de Greg Grandin – editora Penguin Press – 758 páginas – R$ 152,27