O chanceler Mauro Vieira curtia férias quando, na madrugada de 3 de janeiro, interrompeu o descanso para mergulhar em um verdadeiro frenesi diplomático em torno da operação militar dos Estados Unidos que capturou Nicolás Maduro e bombardeou alvos em várias partes da Venezuela.
Oficialmente aposentado do Itamaraty, Vieira foi um dos principais responsáveis pelo tom do primeiro pronunciamento de Lula sobre o ataque e pelo telefonema do petista para a então vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, agora presidente em exercício, horas depois da ação ordenada por Donald Trump.
Desde a deflagração da ofensiva militar, o chanceler brasileiro manteve contatos com homólogos de ao menos treze países e organismos internacionais de diferentes partes do mundo (veja a lista abaixo):
- Yván Gil, da Venezuela;
- Juan Ramón de la Fuente, do México;
- Jean-Nöel Barrot, da França;
- Ronald Lamola, da África do Sul;
- Rosa Yolanda Villavicencio Mapy, da Colômbia;
- Jose Manuel Albares, da Espanha;
- Abbas Araghchi, do Irã;
- Kaja Kallas, alta representante da União Europeia para Negócios Estrangeiros e Política de Segurança;
- Mario Lubetkin, do Uruguai;
- Albert Ramdin, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA);
- Anita Anand, do Canadá;
- Espen Barth Eide, da Noruega;
- David van Weel, da Holanda.
A grande maioria desses telefonemas aconteceu a pedido das autoridades estrangeiras, que buscavam informações confiáveis com o responsável pela política externa do maior país do continente, além da análise do governo brasileiro sobre o delicado episódio de acirramento geopolítico.
Há quem enxergue positivamente que a atuação da diplomacia esteja mais alinhada à excelência profissional da chancelaria brasileira, comandada por Mauro Vieira, do que ao ex-ministro Celso Amorim, assessor especial para assuntos internacionais de Lula e que ganhou fama de se guiar pelo antiamericanismo e tolerar pecados do chavismo.
Um diplomata do Itamaraty que acompanha de perto a crise venezuelana defende que, tanto sob Vieira quanto na atuação de Amorim, o Brasil sempre esteve “no lado certo da história” em relação à Venezuela, principalmente sob o regime de Maduro.
Esse embaixador afirma que o governo Lula esteve na linha de frente das articulações diplomáticas que levaram ao Acordo de Barbados, que abriu caminho para as eleições na Venezuela em 2024, e, depois da votação, também nas pressões para que as autoridades venezuelanas apresentassem os boletins de urna das eleições, diante das denúncias de fraude feitas pela oposição e por observadores internacionais, como o Centro Carter.
Lembra, também, do período durante o qual a embaixada brasileira em Caracas “zelou pela integridade” de assessores da líder oposicionista Maria Corina Machado que haviam se refugiado na residência da embaixada da Argentina na capital venezuelana, e do movimento do Brasil para barrar a entrada da Venezuela no grupo dos Brics.
“Foi a pior derrota diplomática do presidente Maduro depois da eleição”, ressalta o diplomata, ouvido por VEJA em condição de reserva.
Por fim, na comparação com a situação atual envolvendo os Estados Unidos e o anúncio de acordos para receber petróleo da Venezuela, o integrante do Itamaraty aponta ainda que o governo brasileiro “envidou esforços diplomáticos” para se contrapor à reivindicação de Maduro pela anexação da região do Essequibo, na Guiana, igualmente motivada pela riqueza em recursos naturais daquela área.
“O princípio que hoje vale a favor da Venezuela já valeu contra. Mas são princípios, não posições de ocasião”, afirma o diplomata brasileiro.