Uma pergunta insiste em não calar: qual seria o efeito das novas tecnologias embebidas de inteligência artificial e algoritmos no cotidiano de aprendizado de crianças e adultos? Há um outro modo ainda mais incômodo de jogar a questão: gente já crescida é naturalmente mais afeita aos desafios intelectuais do que, por exemplo, adolescentes? Não necessariamente. Um estudo recente da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, a OCDE, revela que aproximadamente um quinto das pessoas entre 16 e 65 anos tem desempenho igual ou pior, em testes de leitura e matemática, do que o esperado de um aluno que acaba de concluir o ensino fundamental. Nos últimos dez anos, de modo consistente, a capacidade de pais e mães de estar à altura dos desafios intelectuais tem caído de modo constante. É péssimo, e com um agravante constrangedor e preocupante: o levantamento reúne dados de 160 000 indivíduos em 31 países ricos, o pelotão do topo da pirâmide.
O Survey of Adult Skills, eis o nome do trabalho, é realizado de dez em dez anos para medir as competências de quem já deixou a infância. O objetivo: verificar se os cidadãos têm as habilidades necessárias para manter um emprego, para prosperar no campo do mundo real, simples assim. Em seu nível mais básico, os testes medem a capacidade de uma pessoa de ler e entender, por exemplo, a bula de um remédio ou as informações nutricionais de um alimento qualquer comprado no supermercado. E aferem suas condições de executar uma operação bancária com simples cálculos de soma e subtração. Não se trata, portanto, de voos elevados, mas do comezinho do comezinho — e eis o susto. Há um efeito colateral revelado pelo trabalho da OCDE: desempenho melhor em leitura e matemática é sinônimo de salário 75% maior que o da turma que ficou para trás. Sabe-se, também, em investigações paralelas, que os mais aptos tendem a ter saúde para viver mais tempo.
Há, por óbvio, resultados esperados. A Finlândia segue muito bem, obrigado. Holanda, Noruega, Japão e Inglaterra também. Contudo, os resultados dos Estados Unidos decaíram. Assim como os de Portugal, Itália, Polônia e Chile, por exemplo. Quase metade dos chilenos tem performance tão ruim, mas tão ruim, que chegam a esbarrar nos degraus de baixo de 8% da população japonesa. Os dados desmontam uma ideia recorrente no debate: a de que o desenvolvimento econômico, medido pelo tamanho do PIB, é atalho sem erro para a qualidade educacional. Não é. Trata-se de escolhas certas ou erradas, em muitos casos. “Os países podem optar por desenvolver um sistema educacional melhor e, se conseguirem, isso será muito recompensador”, diz Andreas Schleicher, diretor de educação e assessor especial em política educacional da Secretaria-Geral da OCDE.

A frase, embora otimista, carrega uma advertência implícita: bons resultados são fruto de decisões inteligentes, como as de Finlândia e Japão, aliás, que insistem no crescimento a partir dos bancos escolares e tentam, de algum modo, controlar o exagerado acesso ao universo exclusivamente digital, menos profundo. Para Schleicher, da OCDE, há um obstáculo que acelera a derrubada de outras peças do dominó: adultos abandonaram os textos longos, que fazem pensar (que bom!), pela efemeridade das redes sociais, especialmente o TikTok. É triste, mas é realidade incontornável — quanto mais a civilização mergulha na digitalização, mais recua do ponto de vista de apreensão de informações. Não se trata de romantismo colado a algum tipo de passado que soava rico, em detrimento do presente apodrecido. É o caso, apenas, de prestar atenção — e melhorar onde for possível, porque ainda há tempo, é claro.
E o Brasil, que não fez parte da mineração de informações da OCDE? Por aqui, os sinais de alerta também se acumulam e extrapolam os muros da escola. O Inaf, índice que mede os níveis de alfabetismo funcional da população de 15 a 64 anos, apontou em 2024 uma oscilação negativa entre jovens de 15 a 29 anos — justamente a geração que cresceu imersa em telas. Já a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, revelou um dado simbólico: mais da metade dos brasileiros (53%) não leu nenhum livro nos três meses anteriores às entrevistas. O empobrecimento do hábito de leitura não é apenas cultural; ele afeta diretamente a capacidade de concentração, argumentação e pensamento abstrato.
Para boa parte dos especialistas, alheios à clivagem meramente social, que existe, há o esgotamento de um modelo de aprendizagem pouco adaptado às transformações tecnológicas e cognitivas dos dias de hoje, daí a presença de países ricos no rol de estragos. “Não se trata apenas de recuo nas habilidades avaliadas, nem exclusivamente de insuficiência da educação escolar, mas do reflexo de fenômenos mais amplos, ligados a demandas cotidianas cada vez mais complexas”, afirma Maria do Rosário Longo Mortatti, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e presidente emérita da Associação Brasileira de Alfabetização. É estrada de ida e volta. Não há pleno uso da tecnologia sem o domínio das habilidades básicas de leitura, matemática e ciências. São essas competências que permitem distinguir o fato da mentira, o dado da opinião, o argumento da manipulação. Elas sustentam a capacidade de compreender contextos, interpretar informações e tomar decisões racionais em um ambiente saturado de estímulos.
Quando essas bases falham, a tecnologia deixa de ser ferramenta de emancipação e passa a operar como amplificador de desinformação, superficialidade e dependência. Albert Einstein, sempre um passo à frente, intuiu o ponto ao qual chegamos: para ele, se a tecnologia superasse a interação humana, “o mundo terá uma geração de idiotas”. À luz dos dados atuais, a agressiva frase soa menos como provocação e mais como advertência.
Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979