Por apenas US$ 4, portadores de doenças crônicas no estado norte-americano de Utah já conseguem colocar a renovação de receita no piloto automático, sem consulta e sem o ritual tradicional de “falar com o doutor”. Chegou a IA da receita médica, pessoal.
Evito dizer aqui na coluna que “parece coisa de filme”, porque quando se trata de tecnologia cenários ficcionais realmente ganham contornos reais com cada vez mais frequência. Mas, vá lá, realmente tem cara de Black Mirror, não?
Essa iniciativa – que obviamente tem gerado polêmica – é parte de um teste realizado pela empresa Doctronic, health tech em atividade desde 2023, que se consolidou com um assistente médico por IA em que o usuário descreve sintomas e recebe orientação com possíveis diagnósticos e plano de ação que inclui procurar um médico de carne e osso.
O novo sistema permite que a IA faça renovações rotineiras de prescrições de 190 medicamentos. Não entram no projeto analgésicos potentes (que viraram uma praga nos Estados Unidos), remédios para TDAH (idem, usados por quem não precisa, inclusive no Brasil), injetáveis e outros considerados sensíveis.
Como funciona a IA da receita médica na prática?
O processo de renovação acontece dentro de uma plataforma totalmente automatizada de inteligência artificial, desenhada para atualizar receitas com rapidez, privacidade e personalização. O serviço cobra, como mencionei acima, uma taxa de US$ 4 (cerca de R$ 21) e funciona assim: o usuário escolhe a receita que deseja renovar e faz uma consulta breve com o chamado “médico de IA” da empresa. Em seguida, ao informar e-mail e confirmar que está localizado em Utah, a ferramenta solicita a validação da identidade e então encontra as prescrições registradas.
O objetivo do teste é verificar se a IA pode assumir com segurança uma tarefa importante da rotina médica, mas que por ser “repetitiva” entrou no radar de empresas que buscam automatizar tudo que conseguirem.
Porém, mais do que testar as capacidades das máquinas, que é algo fácil de definir se deu ou não certo, o programa da Doctronic serve como um grande “se colar, colou”. A que me refiro quando digo isso? Que a empresa está tentando entender como os órgãos reguladores e a classe médica vão reagir – se funcionar, isso abre caminho para testes mais arrojados. A adesão do público também será medida, muito embora o consumidor final, coitado, seja muitas vezes o menos ouvido em casos assim.
É possível, por outro lado, que a iniciativa permita levar à coleta de dados capazes de melhorar o serviço médico em Utah e em outros estados. Inclusive do ponto de vista de gastos para a população, num país em que há casos de despesas médicas que levam cidadãos à falência. Além disso, facilitar a renovação de receitas médicas pode ajudar pacientes a não largar o tratamento pela metade.
Apólice de seguros contra erros médicos de IA
A American Medical Association (AMA), principal entidade médica dos EUA, se manifestou contra o piloto de Utah . Alegou que embora a IA tenha potencial para transformar a medicina, decisões desse tipo não deveriam acontecer sem supervisão de médicos, porque isso pode abrir brechas para erros clínicos, interações medicamentosas perigosas e até abuso do sistema por pacientes que tentem burlar a automação. A National Association of Boards of Pharmacy, que congrega farmacêuticos, considera que o desafio é regular a tecnologia.
Dados que a Doctronic entregou ao estado indicam que planos de tratamento de seu sistema de IA coincidiram com os de profissionais humanos em 99,2% das vezes (essa análise foi feita a partir de 500 casos de atendimento de urgência). A empresa promete que, em casos de incerteza, médicos serão automaticamente acionados. E afirmou, ainda, que criou sob medida uma apólice de seguros contra erros médicos causados por seu sistema de IA.