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“Não sei do que uma criança gosta”, diz criador de ‘Primal’ e ‘Samurai Jack’

Quando Genndy Tartakovsky fala sobre animação, não fala sobre desenhos infantis; fala sobre ritmo, silêncio e a “caricatura da vida real”. Sobrevivente de cinco fusões corporativas e mudanças sísmicas na indústria — da TV a cabo ao streaming —, o diretor russo-americano mantém uma filosofia estoica: “O negócio será sempre o negócio, está além do meu controle. Eu apenas crio séries”.

E poucas criações recentes foram tão audaciosas quanto Primal, cuja terceira temporada estreou em janeiro na HBO Max, onde novos episódios são exibidos às segundas-feiras. O que começou como uma saga pré-histórica sobre um homem das cavernas e um dinossauro evoluiu para um estudo sobre brutalidade e perda. Se o final da segunda temporada sugeriu o fim para os protagonistas Spear e Fang, o novo ano subverte expectativas, trazendo o dino de volta como uma espécie de autômato morto-vivo em busca de vingança.

Para Tartakovsky, essa guinada não foi acidente, mas necessidade. “Eu gosto de assistir coisas que me surpreendam. E acho que a mesma coisa vale para Primal: você não sabe o que vai ver de episódio para o outro”, explica ele, em entrevista a VEJA. Ele rejeita a fórmula do “monstro da semana”, preferindo uma narrativa onde menos previsível.

Terceira temporada de 'Primal': aposta no inesperado -
Terceira temporada de ‘Primal’: aposta no inesperado –HBO Max/Reprodução

Assinatura autoral

Sua carreira espelha a evolução da animação americana moderna. Estourou jovem, aos 26 anos, com O Laboratório de Dexter. Na época, cercado por veteranos, admite: “Eu era tão jovem, tipo, ‘Ah, eu posso fazer uma série. Ok’. Eu nem sabia o que estava fazendo”.

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Foi a transição para Samurai Jack, porém, que definiu sua voz. Cansado das convenções que ele mesmo ajudou a popularizar, buscou o oposto. “Basicamente, estou cansado de diálogos. Estou cansado da linha preta grossa que fizemos em Dexter e As Meninas Superpoderosas. no qual trabalhei, mas que foi criado por Craig McCracken. Quero fazer algo diferente”, relembra sobre a gênese do samurai perdido no tempo. Essa busca pelo “novo sabor” é o motor de sua carreira — o medo de ser colocado em uma caixa. “Não quero que pensem: ‘Bem, Genndy só faz uma coisa, então não podemos usá-lo’”, diz ele.

'Samurai Jack': quando Tartakovsky encontrou a maturidade -
‘Samurai Jack’: quando Tartakovsky encontrou a maturidade –Adult Swim/Reprodução

Entre os quadrinhos e o cartoon

Seu estilo — figuras angulares, ação cinética, poses extremas — tem raízes profundas nos quadrinhos americanos dos anos 1970 e 1980. Cita Jack Kirby e Frank Miller como influências tão vitais quanto os cartoons da Warner Bros. “A forma como os quadrinhos são desenhados é uma caricatura da vida real, certo? Ninguém tem músculos daquele jeito. E quando você soca, é um soco exagerado”, diz ele. “Minha base é Tex Avery misturado com algo como Jack Kirby.”

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Apesar de ter criado múltiplos universos icônicos, é taxativo quanto à moda de interligar franquias. Sobre um crossover entre seus personagens, a resposta é um não definitivo. “Eu sei que muita gente gosta desse tipo de coisa, mas não é para mim”, afirma. “Eu gosto do universo de Primal, do universo de Jack, do universo de Dexter. Eles são todos separados… Estou tentando fazer você escapar para este mundo e não lembrá-lo de que existem outros mundos.”

Criar para si

Numa era de grupos focais e algoritmos, sua abordagem soa rebelde: ele faz para si mesmo. A violência gráfica de Primal ou a comédia adulta de Fixed (animação 2D sobre um cachorro em sua última noite antes da castração) não são cálculos de nicho, mas expressões de seu gosto. “Eu não sei do que você gosta. Eu não sei do que seu filho gosta. Eu não sei do que uma criança gosta”, admite. “Tudo o que podemos fazer é criar algo que nós, como grupo, gostamos. Sempre fizemos isso para nós, na esperança de que outras pessoas gostem da nossa sensibilidade.”

Foi assim que Primal nasceu. Ninguém pediu uma série muda sobre um homem das cavernas, mas Tartakovsky sentiria que assistiria. “Ninguém está fazendo isso. Então eu acho que vou fazer”, conclui.

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Pragmatismo e traço contínuo

À frente, mantém a cautela de quem viu projetos como Fixed levarem 15 anos para sair do papel. Desenvolve Heist Safari, uma comédia de assalto com sapos, e continua tentando emplacar longas, incluindo o épico The Black Knight.

Aos 56 anos, observa a nova geração e as mudanças tecnológicas sem saudosismo, mas com pragmatismo. “Tudo vai continuar mudando conforme a tecnologia progride. Mas os programas, o conteúdo… sempre serão necessários.” Para Genndy Tartakovsky, enquanto houver uma tela em branco, haverá espaço para quebrar o silêncio com um traço forte e um soco exagerado.

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