Inventivo na mesma proporção que se coloca provocador, Milton Cunha, 63 anos, não foge à luta e ao debate. Graduado em Psicologia, com Mestrado e Doutorado em Letras na UFRJ, sobre a Rapsodia Brasileira de Joãozinho Trinta, tem dois pós-doutorados na Eba-UFRJ e está currando um terceiro. Além disso, é comentarista de Carnaval da TV Globo, roda o Brasil e o exterior em palestras e apresenta programas locais. Incansável, o paraense começou como carnavalesco na Beija-Flor em 1994. Trabalhou na São Clemente em 2004 e 2005. Com um pé na academia e outro da Avenida, ele traz seus saberes para a teoria com a mesma destreza que mantém o fluxo no sentido inverso.
Recentemente surgiram rumores do afastamento de Milton da Globo após ele protagonizar uma propaganda institucional do Governo Federal, veiculada na televisão desde dezembro. A emissora, entretanto, negou seu afastamento da programação de Carnaval. Em nota enviada à coluna GENTE, a empresa afirmou que Milton é “o grande Embaixador do Carnaval Globeleza” e segue ligado à grade de entretenimento do canal. Convidado do programa semanal da coluna GENTE (disponível no canal da VEJA no Youtube, no streaming VEJA+, na TV Samsung Plus e também na versão podcast no Spotify), o “faraônico” Milton fala das visões amazônicas que permearam sua criação, a relação dos bicheiros com o mundo do samba, critica a chegada de Virginia Fonseca como rainha de bateria da Grande Rio e diz o que achou do samba em homenagem ao presidente Lula (PT) a ser defendido pela Acadêmicos de Niterói. Assista.
LEMBRANÇAS AMAZÔNICAS. “É interessante que desde a minha infância a gente viu a chegada do agronegócio e o projeto Transamazônica. E vinham umas coisas de fora assim: o bicho papão, aqueles tratores com aqueles dentes… E a gente ficava olhando dizendo: ‘Gente, esse povo está tudo doido, porque esse povo está achando que eles dominam, domam o espírito amazônico’. E me lembro da luta que era aqueles homens com a estrada e rapidamente a natureza invadia, avançava, chuvas torrenciais, máquinas patinando. Nós, que vivemos aqui, a gente sabe: ‘olha, não constrói agora não que agora é hora da chuva, espera vir a seca’. Há um saber do amazônida que precisa ser considerado, porque o estrago é estrangeiro, ele é de fora”.
CASAMENTO HÉTERO FALIU. 04:07 “Essa noção de progresso canibal, leonino, de você destruir a presa, deixar só o esqueleto, esse progresso deu errado. Aliás, outra coisa que deu muito errado foi o casamento ético heterossexual. Esse modelo de benção para sempre, puf, caiu. Junto com o casamento heterossexual, caiu a noção do progresso que vai deixando buracos, aterrando rios. De alguma forma essa gente caducou, fracassou”.
INVASÃO NO SAMBA. “O samba é um comportamento imitativo. Você vê as passistas do Japão, as passistas da Austrália, elas imitam e vão muito bem. O que elas não têm? A vivência, elas não têm a ancestralidade de uma avó que foi baiana, porta-bandeira, passista e que contou para a menina que desce as vielas dos morros. Falta a elas, além do comportamento imitativo, esse entendimento de que sambar não é só o corpo, o músculo; sambar é todo um discurso de valor cultural que antecede a própria execução do ato. Então, você se vestir, dar tchau para tua mãe, ir para a quadra… Isso dá para essas meninas uma cara de representação, elas conhecem todos os caras da bateria. Então, sim, a gente está questionando muito, né? A gente está questionando muito até aonde vai o avanço do capital comprando postos de representação, quando essas pessoas não representarão nada. Elas não sabem nem, inclusive, do que se trata”.
TALENTO PERIFÉRICO. “Será a escola de samba um local onde você fica temporariamente por um ano, por 6 meses, ocupa um cargo absolutamente representativo, sem ser um de dentro? É possível negociar esse tipo de valor? A gente está questionando, porque com o aquilombamento da humanidade nas redes sociais, tem a voz da negritude, a voz do movimento social, reivindicando autoria, certíssimos. O talento é comunitário, é periférico. E aos ricos de muitas outras coisas, não só de dinheiro, caberá o aplauso, o patrocínio, mas sempre nesse sentido de valorizar quem está lá. Não é um local onde você possa vir passar um tempo”.
MUDANÇAS NA ESTRUTURA. “A estrutura deve ser entendida assim: quem está no poder da decisão? Um bando de homem branco, um bando de cinquentão, sessentão. Então, ora, a estrutura machista da direção da escola de samba da Liesa é, nada mais, nada menos, que reflexo do macro. Só que aí entra a nova geração dos bicheiros, né? E Gabriel (David) e (João) Drummond vão trazendo um olhar para a internet, a rede social e começam a chamar mulheres negras para diretoria”.
Captação de imagens: Libário Nogueira / Sobre o programa semanal da coluna GENTE. Quando: vai ao ar toda segunda-feira. Onde assistir: No canal da VEJA no Youtube, no streaming VEJA+, na TV Samsung Plus ou no canal VEJA GENTE no Spotify, na versão podcast.