A líder da oposição da Venezuela, María Corina Machado, apelou nesta quinta-feira, 8, para que “a transição (de poder) seja o mais ordenada e pacífica possível” após a queda do ditador Nicolás Maduro, levado preso pelos Estados Unidos. Em entrevista ao portal de notícias argentino Infobae, ela afirmou que a deposição do líder chavista representa o início do desmonte de uma “estrutura de terror e crime”. Assim como em declarações anteriores, elogiou e agradeceu ao presidente americano, Donald Trump, pela intervenção.
“Somos profundamente gratos ao Presidente Donald Trump. Chegar até aqui exigiu visão, coragem e decisão. O Presidente dos Estados Unidos fez isso em benefício de seu povo, de seus eleitores, do povo dos Estados Unidos, mas também em benefício dos venezuelanos e de toda a América”, disse ela.
“Ou seja, vamos transformar a América, e estamos vendo esse movimento acontecer em um hemisfério onde não haverá regimes comunistas, ditatoriais ou narcoterroristas. Porque pode ter certeza, Lucas (nome do repórter), que assim que terminarmos de libertar a Venezuela, libertaremos Cuba, libertaremos a Nicarágua”, adiantou. Nos últimos dias, Trump ameaçou cinco territórios ao redor do mundo.
Ela comemorou a deposição forçada de Maduro no último sábad0, 3, definindo o incidente como “um passo gigantesco rumo à liberdade, à justiça, à reunificação dos venezuelanos e ao desmantelamento de toda uma estrutura de terror e maldade”. No entanto, reiterou os apelos de que a transição de poder seja realizada o mais breve possível e argumentou que o primeiro passo seria “a libertação imediata e incondicional de todos os presos políticos, todos eles”.
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Ilegitimidade de Maduro
Questionada sobre a reação de líderes estrangeiros, que em grande parte condenaram a decisão de Trump por violar o direito internacional, a engenheira apontou para a ilegitimidade de Maduro. As eleições presidenciais venezuelanas de 2024 foram marcadas por acusações da oposição de que o regime chavista havia manipulado os resultados e que, na verdade, Edmundo González teria sido o escolhido pela população. O Conselho Nacional Eleitoral (CNE), embora pressionado pela oposição e pelos eleitores, nunca divulgou as atas do pleito.
“Portanto, as democracias, e especialmente os líderes corajosos que chamam as coisas pelos seus nomes, entendem que a justiça internacional e o direito internacional devem estar a serviço do povo, não dos tiranos. Não podem se tornar uma desculpa para a impunidade absoluta, especialmente uma alimentada por um discurso de dois pesos e duas medidas”, continuou Machado.
“O direito internacional deve proteger a soberania das nações. E no caso da Venezuela, todos sabem que a soberania foi exercida em 28 de julho, com a emissão de um mandato retumbante com a eleição de Edmundo González Urrutia como nosso presidente — um mandato para uma transição para a democracia”, afirmou ela, que depois respondeu que “absolutamente, sim” estava em posição de assumir o poder.
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Não houve ‘invasão’, segundo Machado
Além disso, Machado se recusou a definir a operação dos EUA como uma “invasão”, contrapondo que “trata-se da libertação da Venezuela dessas forças do mal”. Ela também disse que não iria “especular sobre as intenções, o conteúdo ou as propostas específicas formuladas pelo governo do presidente Donald Trump e implementadas e coordenadas pelo secretário de Estado Marco Rubio”, em referência as alegações de que a Casa Branca estaria apenas interessada em acessar os recursos naturais do país, como o petróleo, e ampliar a influência na América Latina em meio ao aumento da presença da China.
“O que está claro é que, neste momento, a Sra. Delcy Rodríguez, figura essencial e fundamental em toda a estrutura criminosa, arquiteta dos mecanismos para burlar sanções, para a tortura, para o terror, para a corrupção, sancionada pelo sistema judiciário dos Estados Unidos e de outros países ao redor do mundo, recebeu instruções para que o próprio regime desmantele certas estruturas dentro de seu próprio sistema. E essa é a fase que estamos vivenciando agora”, acrescentou a líder da oposição.
“Agora, isso é sustentável? Obviamente não. Por quê? Porque lhe falta fundamentalmente, entre outras formas de apoio, mas sobretudo, o apoio do povo, do povo da Venezuela. E, no fim das contas, o povo está no centro de tudo e é a força mais poderosa que trará estabilidade a uma transição sustentável e ordenada para a democracia na Venezuela”, apontou.
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Prisão e acusações
Segundo reportagem da emissora CNN, Maduro e Cilia foram arrastados do quarto em que estavam por militares americanos na madrugada de sábado. Em entrevista à emissora americana Fox News, o presidente Donald Trump disse que assistiu ao vivo à captura, transmitida por agentes que participaram da missão. À agência de notícias Associated Press, o líder do partido governista venezuelano, Nahum Fernández, disse que ambos estavam na residência dentro do complexo militar do Forte Tiuna. Os dois estão presos no Brooklyn e alegam inocência.
Em um novo indiciamento divulgado no sábado, os promotores de Manhattan alegam que Maduro supervisionou pessoalmente uma rede de tráfico de cocaína patrocinada pelo Estado, que tinha parcerias com alguns dos grupos narcotraficantes mais violentos e prolíficos do mundo, incluindo os cartéis mexicanos de Sinaloa e Los Zetas, o grupo paramilitar colombiano FARC e a gangue venezuelana Tren de Aragua.
A acusação contra Maduro na Corte do Distrito Sul de Nova York coloca como réus, além do ditador deposto e sua esposa, o filho do líder venezuelano, Nicolás Maduro Guerra, o ministro do Interior, Diosdado Cabello, e Hector Guerrero Flores, conhecido como Niño Guerrero e líder do Tren de Aragua.
Segundo o documento, Maduro “se associou a seus cúmplices para usar sua autoridade obtida ilegalmente e as instituições que corroeu para transportar milhares de toneladas de cocaína para os Estados Unidos”. A peça de acusação relembra a controversa trajetória do ditador e imputa a ele, por exemplo, o papel de ter movimentado carregamentos de cocaína sob proteção da polícia venezuelana quando era membro da Assembleia Nacional, ter fornecido passaportes diplomáticos a notórios traficantes de drogas e ter facilitado a cobertura diplomática para que criminosos mexicanos pudessem repatriar dinheiro do crime para a Venezuela.
“Maduro Flores permite que a corrupção alimentada pela cocaína floresça para seu próprio benefício, para o benefício dos membros de seu regime governante e para o benefício de seus familiares”, disse o procurador dos Estados Unidos Jay Clayton.
O documento ganha relevo porque é esta denúncia criminal formal, conhecida no sistema americano como “indictment”, que autoriza acusações criminais graves e a expedição de mandados de prisão internacionais. Acusado de narcoterrorismo, o venezuelano passa a ser enquadrado como risco à segurança nacional dos Estados Unidos com base em uma lei americana criada após os ataques de 11 de setembro de 2001. É na mescla de direito penal, direito internacional e risco à segurança nacional que autoridades do governo norte-americano se fiam para julgar e condenar Maduro.