É notório ressaltar a importância das obras de Manoel Carlos para a teledramaturgia nacional, posto que ele ajudou a redefinir a maneira como a televisão brasileira representa o cotidiano, os afetos e os conflitos da vida urbana como uma “crônica televisual”. Seu texto consolidou um modelo de novela centrado menos na ação espetacular e mais na dramaturgia das relações humanas, especialmente das famílias de classe média, criando uma estética reconhecível e duradoura. Para tal, colocou o bairro do Leblon, na zona sul do Rio, mais do que cenário, como “personagem” central de suas obras.
Um dos maiores legados de Manoel Carlos é a humanização dos personagens. Suas tramas foram construídas a partir de pequenos gestos, diálogos longos (cenas de mais de três minutos, algo impensável para os dias atuais) e situações corriqueiras, o que aproximou a novela da experiência real do telespectador. Esse realismo emocional permitiu que o público se visse refletido na tela, fortalecendo o vínculo afetivo com a narrativa e elevando a novela a um espaço de identificação social. Ao inserir temas sociais e morais no horário nobre de forma incisiva (envelhecimento, adoção, deficiência física, conflitos geracionais, ética médica, aborto, relações abusivas etc), Maneco fez a novela ampliar o alcance social como ferramenta de reflexão coletiva.
As críticas contemporâneas sobre limites de representação da mulher e do negro, machismo ou falta de diversidade racial de suas novelas não apagam sua relevância. Mas ajudam a reforçar o alcance de suas obras, demonstrando como suas novelas foram reflexo de um pensamento vigente no país. Maneco fez de suas “crônicas televisuais” referências históricas para medir as transformações sociais do país. A seguir, quatro obras que apresentam, à luz dos tempos atuais, questões que precisam ser aprofundadas:
- Laços de Família (2000) — A novela foi alvo de intervenção da Justiça porque crianças menores de 18 anos, inclusive figurantes, estavam participando de cenas com conteúdo considerado inadequado (sexual ou de violência). A Globo teve que retirar essas crianças da trama por algumas semanas e remanejar cenas. Hoje a trama também é analisada sob a perspectiva de gênero e machismo, com cenas que parte do público vê como datadas ou que reforçam comportamentos machistas.
A obra de Maneco, com foco recorrente em personagens femininas (especialmente as “Helenas”), às vezes é vista como representando relações desequilibradas entre gêneros ou reforçando papéis tradicionais, mesmo quando tenta criticá-los. A própria filha dele, a atriz Julia Almeida, comentou em participação no programa semanal da coluna GENTE, que muitas dessas histórias podem ser lidas como machistas, refletindo padrões culturais da época em que foram escritas.
Quanto a suas protagonistas, as famosas “Helenas” (Regina Duarte, Vera Fischer, Christiane Torloni, Taís Araújo, Júlia Lemmertz) costumam ser mulheres fortes, mas cuja realização plena quase sempre passa pelo sofrimento amoroso, pela renúncia pessoal ou pela maternidade sacrificada. Em Laços de Família, Helena aceita humilhações emocionais de Edu e naturaliza relações desiguais, algo hoje lido como romantização da submissão feminina.
- Páginas da Vida (2006) — Durante a produção, diversos atores reclamaram publicamente do desenvolvimento ou espaço de seus personagens, incluindo Ana Paula Arósio, Renata Sorrah e Leandra Leal. Segundo reportagens da época, houve conflitos profissionais e tensões com o autor.
Quanto ao conteúdo que foi ao ar, há quem critique esta obra porque a mulher que não deseja ser mãe ou que prioriza carreira costuma ser retratada como incompleta, egoísta ou infeliz. Em Páginas da Vida, personagens femininas são julgadas moralmente por suas escolhas reprodutivas, enquanto personagens masculinos raramente sofrem o mesmo peso ético.
- Viver a Vida (2009) – Até esta trama, as novelas de Manoel Carlos retratavam majoritariamente um universo branco, elitizado e zona sul-cêntrico, pouco representativo do Brasil real. Personagens negros, quando existem, ocupam papéis secundários: empregados, motoristas, amigos periféricos. Apesar de ser a primeira Helena negra, Taís Araújo teve sua personagem esvaziada ao longo da trama. A narrativa migraria progressivamente para a personagem branca (Luciana, de Alinne Moraes), o que foi amplamente debatido como racismo estrutural na condução da história. Questões raciais da personagem Helena praticamente não são aprofundadas, o que gerou críticas por apagamento da experiência negra.
Nas reprises de suas tramas, é possível perceber que empregadas domésticas negras aparecem com frequência, quase sempre dóceis, maternais e submissas, sem histórias próprias complexas. Reforça-se o estereótipo histórico da mulher negra ligada ao cuidado do outro, não à autonomia.
- Em Família (2014) — Foi amplamente criticada na época por ter baixa audiência, especialmente para um autor consagrado, e surgiu um boato de que ele teria “abandonado” a trama no meio da produção, algo que colaboradores negaram. Havia também debates públicos online sobre a abordagem de temas sociais na trama (incluindo interpretações equivocadas por parte de críticos que acusaram o autor de “machismo” ou de fazer proselitismo ideológico), gerando cartas abertas e discussões em redes sociais.
Pesquisadores apontam que as novelas de Manoel Carlos, aliás, reforçaram estereótipos sociais e raciais, especialmente por não refletirem de forma ampla a diversidade racial no Brasil e por valorizar retratos da classe média carioca.