A captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos interrompeu negociações discretas conduzidas pelo regime chavista para viabilizar um exílio político no Leste Europeu.
Segundo relatos diplomáticos, emissários venezuelanos sondaram o governo de Belarus nas semanas que antecederam a ofensiva americana, avaliando a possibilidade de acolhimento do líder chavista sob proteção do presidente Aleksandr Lukachenko, aliado histórico do Kremlin.
A movimentação ocorreu em meio ao endurecimento da política de Washington contra Caracas, que passou a tratar a Venezuela como um teste inicial de sua nova Estratégia de Segurança Nacional.
O plano prevê a contenção e eventual expulsão da influência de potências rivais do hemisfério ocidental, com foco especial na presença russa e chinesa.
Embora tenha apoiado o chavismo por mais de duas décadas, a Rússia optou por não oferecer asilo direto a Maduro. A avaliação em Moscou foi a de que um gesto desse tipo poderia comprometer o diálogo entre Vladimir Putin e Donald Trump sobre a guerra na Ucrânia, hoje a principal prioridade estratégica do Kremlin.
Belarus surgiu, assim, como alternativa intermediária, politicamente alinhada à Rússia e menos custosa do ponto de vista diplomático.
O plano não se concretizou. A rápida operação americana levou Maduro aos Estados Unidos, onde ele aguarda julgamento sob acusações de narcoterrorismo e crimes transnacionais.
A ação expôs os limites da rede de proteção internacional do regime venezuelano e obrigou seus aliados a recalibrar posições.
Cautela em Moscou
Publicamente, o governo russo condenou a captura e voltou a criticar o que classifica como intervencionismo americano. Nos bastidores, porém, prevalece a cautela. Avaliações internas indicam temor de que o sucesso da operação fortaleça Trump e leve a uma postura mais dura nas negociações sobre a Ucrânia.
A Venezuela foi, desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, um ativo simbólico da estratégia russa de projeção de influência nas Américas. Moscou vendeu armamentos avançados, realizou exercícios militares e usou a parceria para sinalizar presença em uma região historicamente dominada pelos EUA.
Esse investimento, contudo, nunca gerou ganhos econômicos relevantes e perdeu prioridade com o prolongamento da guerra na Europa Oriental.
Pequim observa à distância
A China adotou um tom ainda mais contido. Pequim sempre manteve relação pragmática com Caracas, baseada em petróleo e financiamento de infraestrutura, evitando envolvimento militar direto. Nos últimos anos, reduziu exposição financeira diante do colapso econômico venezuelano.
No atual cenário, a prioridade chinesa é preservar negociações comerciais e estratégicas com Washington. Analistas avaliam que Pequim não pretende transformar a Venezuela em foco de confronto, sobretudo em um momento em que Taiwan e o Indo-Pacífico concentram suas atenções.
Novo recado regional
A queda de Maduro sinaliza o limite da capacidade de Rússia e China de sustentar aliados quando os Estados Unidos decidem agir diretamente em seu entorno estratégico.
Para Washington, a operação reforça a mensagem de que não aceitará a consolidação de rivais globais em sua área de influência imediata.
Resta saber se o episódio será isolado ou o primeiro movimento de uma ofensiva mais ampla para redefinir o equilíbrio de poder nas Américas.
O que Putin disse sobre a crise
O presidente russo Vladimir Putin condenou a captura de Nicolás Maduro, afirmando que a ação viola a soberania da Venezuela e princípios do direito internacional.
Defendeu que a crise seja resolvida por meio de diálogo político interno, sem imposições externas. Apesar do discurso crítico, evitou anunciar qualquer retaliação concreta ou ampliação do apoio ao chavismo, sinalizando que o tema não é prioridade frente à guerra na Ucrânia.