Em discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, o presidente da França, Emmanuel Macron, criticou a retórica do presidente americano, Donald Trump, nesta quinta-feira, 20. De óculos escuros por conta de uma “condição ocular”, o francês disse não ser “momento para imperialismos e colonialismos”, defendendo uma atuação conjunta da Europa para frear as investidas dos Estados Unidos na Groenlândia, ilha no Ártico que pertence ao Reino da Dinamarca.
“A Europa tem ferramentas muito fortes agora, e temos que usá-las quando não somos respeitados e quando as regras do jogo não são respeitadas”, disse Macron. “O mecanismo anti-coerção (da União Europeia) é um instrumento poderoso, e não devemos hesitar em utilizá-lo no ambiente difícil de hoje”, citando o instrumento criado para limitar acesso ao mercado europeu a parceiros comerciais hostis.
Na segunda, Trump concordou em participar de uma reunião com líderes europeus sobre a Groenlândia, um território rico em recursos naturais, em Davos, mas adiantou que “não há como retroceder”. Ele também postou na Truth Social uma imagem feita com inteligência artificial em que aparece fincando uma bandeira dos EUA na Groenlândia, ao lado do seu vice, J.D. Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio. O mandatário da Casa Branca alega, desde o seu primeiro mandato, que a região é sensível para a segurança nacional dos EUA.
Também em Davos, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, usou seu discurso nesta terça-feira, 20, para dar respostas duras a Trump, após o mandatário americano reiterar suas intenções de tomar controle da Groenlândia. Von der Leyen afirmou que a ameaça de impor tarifas para coagir países europeus “é um erro”, defendeu a soberania da Groenlândia e afirmou que a Europa deve “buscar mais independência” em relação aos Estados Unidos.
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“Tarifas são um erro, especialmente entre aliados de longa data”, disse a chefe da UE, lembrando que o bloco chegou a um acordo comercial com Washington no ano passado e não deveria ser alvo de taxações. “Na política, assim como nos negócios, um acordo é um acordo. E quando amigos apertam as mãos, isso precisa significar alguma coisa”, disparou.
No último sábado, Trump anunciou pelas redes sociais que aplicaria uma tarifa de 10% sobre Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia a partir de 1º de fevereiro de 2026, caso esses países europeus fossem contrários ao plano dos Estados Unidos de comprar a Groenlândia. Depois, em 1º de junho, a tarifa seria aumentada para 25%.
Em paralelo, o líder americano também enviou uma carta ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Store, em que renovou a intenção de tomar o controle da Groenlândia, um território dinamarquês semiautônomo rico em minérios, e também vinculou suas ameaças à ilha no Ártico ao fato de não ter sido laureado com o Nobel da Paz, informou o jornal norueguês VG nesta segunda-feira, 19.
No texto, o presidente americano afirmou que, após não ter ganhado o prêmio distribuído por um instituto norueguês independente, não sente mais necessidade de pensar “apenas em paz”.
Von der Leyen acrescentou que a Europa considera o povo dos Estados Unidos não apenas um aliado, mas amigos, e afirmou: “Mergulhar em uma espiral descendente só contribuiria para as adversidades que ambos estamos comprometidos em manter fora do cenário estratégico.”
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Para o primeiro-ministro da Bélgica, Bart De Wever, o presidente dos Estados Unidos cruzou “linhas vermelhas”.
“Até agora, tentamos apaziguar o novo presidente na Casa Branca. Fomos muito lenientes, inclusive com as tarifas. Fomos lenientes na esperança de obter seu apoio para a guerra na Ucrânia. (…) Mas agora tantas linhas vermelhas estão sendo cruzadas que você tem que escolher entre o seu amor-próprio. Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo miserável é outra bem diferente”, disse De Wever.