Com as atenções do mundo focadas na Venezuela e na Groenlândia, acontecimentos tenebrosos estão se desenvolvendo na Síria. É complicado, mas vale a pena tentar entender a reviravolta que está tirando o controle de militantes curdos, um povo minoritário sem país, mas com grande espírito de luta, sobre os campos de prisioneiros onde milhares de terroristas estavam recolhidos desde o esforço conjunto, liderado pelos Estados Unidos, para desmantelar o Estado Islâmico, a entidade que surpreendeu o mundo ao emergir no Iraque e na Síria, conquistando vastas extensões desérticas onde instaurou o califado a partir do qual pretendia dominar o Oriente Médio.
A combinação entre as ideias mais medievais possíveis, incluindo a execução de infiéis – não muçulmanos – e de seguidores de linhas rejeitadas do Islã, e métodos modernos de comunicação com estilo chocante, com as filmagens de decapitações e o pavoroso espetáculo da incineração de um piloto jordaniano preso numa jaula, atraiu muitas “almas perdidas”. Eram jovens de famílias muçulmanas nascidos em países europeus nos quais se consideravam não apenas estranhos, mas inimigos. Afluíram aos milhares para a Síria e o Iraque.
Foi só a intervenção americana que conseguiu interromper a tétrica ascensão do ISIS. Os americanos contaram com ajudas importantes: batalhões de iraquianos xiitas (os xiitas são execrados pelos ultrafundamentalistas do ISIS e, como apóstatas, segundo dizem, merecedores de execução imediata) e milícias de curdos, no Iraque e na Síria.
Os curdos são um povo de enorme espírito guerreiro, essencial para manter a sua identidade nos países onde vivem – e são severamente reprimidos pelo natural impulso separatista. São mais de vinte milhões de pessoas, espalhadas entre Turquia, Iraque, Síria e Irã. Ganhar e perder aliados é sua condição natural. Tiveram grande apoio dos Estados Unidos, durante a campanha de combate ao ISIS e depois dela: alguém tinha que guardar os prisioneiros, já que os americanos não aceitavam o método tradicional, de passar todo mundo pelo fio da espada. Na Síria, onde foram concentrados, os curdos eram praticamente autônomos.
FAMILIARES EM FUGA
A reviravolta na Síria mudou tudo. Um grupo que já foi islamista, na linha Al-Qaeda, parecida com a do Estado Islâmico, embora com inimizade mútua, conseguiu o impossível: derrubar o regime de Bashar Assad, que havia sobrevivido a dez anos de guerra civil, com ajuda do Hezbollah, do Irã e da Rússia.
Agora, o presidente e ex-comandante combatente Ahmed Al-Shaara, quer recuperar todo o território sírio e está eliminando com brutal eficiência os bolsões de grupos rivais.
O mais importante deles é o dos curdos. Mesmo com sua experiência e bravura, foram vencidos pelas forças do governo islamista. Nas últimas semanas, isso criou a perspectiva de que os presos do Estado Islâmico poderiam ser liberados, como instrumento de pressão – ou também de vingança.
Além deles, existem suas famílias, vivendo em acampamentos ao redor das prisões. As mulheres são igualmente radicais, com muitas tendo deixado as famílias na Europa para se cobrir com a burka e aderir ao extremismo. Quando os maridos tomavam escravas sexuais entre jovens de minorias como os yazidis, elas colaboravam.
Agora, mais uma vez, os Estados Unidos vão salvar a pátria. Além de pressionarem o governo de Shaara, com o qual Donald Trump está cultivando boas relações, vão comandar a transferência de cinco mil presos do ISIS da Síria para o Iraque. Os curdos, que para complicar usam o nome de Forças de Defesa da Síria, dizem que já houve fugas, além de casos em que familiares derrubaram as cercas em torno dos campos de refugiados e desapareceram.
O caso mais conhecido é o da Shamima Begum. Em 2015, com apenas quinze anos, viajou com duas amigas da Inglaterra para a Síria e se casou com um terrorista do Isis. Os três filhos dessa união morreram. Ela teve a cidadania britânica revogada, mas há organizações de direitos humanos que fazem campanhas para que volte ao país que pretendia destruir. Shamima parou de usar burka e começou a aparecer com roupas modernas e cabelo trabalhado na escova.
O que fazer com ela e tantos outros em condições similares?
SIMPATIAS ISLAMISTAS
Num enorme esforço de inteligência, envolvendo os países europeus, os Estados Unidos e Israel, o Estado Islâmico foi desarticulado. Mas a ideologia sobrevive, inclusive nas redes. Os terroristas isolados que se radicalizam em casa, diante do computador, sempre prestam juramento ao ISIS antes de praticar ou tentar praticar suas atrocidades.
O Oriente Médio está num momento de alto fluxo, com Trump forçando a barra para um grande acordo envolvendo Gaza e toda a questão Palestina. Conseguiu um apoio importante dos oito principais países árabes – inclusive dos que se odeiam entre si.
A aposta no regime sírio de Shaara é arriscada, inclusive porque muitos suspeitam de suas simpatias islamistas. Israel se sente acuado por Trump e dificilmente sairá da área síria que tomou depois da mudança de regime. Os israelenses também têm o compromisso de defender os drusos, outra minoria que Shaara quer dominar. Existem drusos israelenses que exigem solidariedade aos irmãos na Síria e Israel gosta de parecer como entidade protetora.
É uma história complicada na qual os maiores perdedores, como sempre, são os curdos – um povo etnicamente mais próximo do Irã, de religião muçulmana sunita e com exceções no comportamento tradicional, como admitir mulheres em posições de combate. Inclusive muitas participaram da mobilização contra o Estado Islâmico.
A ideia de terroristas ultrafundamentalistas, daqueles que jogavam gays do alto de prédios das localidades conquistadas na Síria e no Iraque, escapando da prisão para voltar à Europa é um pesadelo indescritível. Se os Estados Unidos conseguirem conter essa crise – e só eles podem fazê-lo – o mundo terá que agradecer.