Luis Fernando Verissimo (1936-2025), morto neste sábado, 30, era um homem de poucas palavras, mas se tornava eloquente quando as colocava no papel. O escritor e cronista que criou imagens certeiras e inesquecíveis sobre a vida cotidiana do Brasil contemporâneo tinha também habilidade como desenhista. Inspirado em grandes nomes da ilustração como o francês Jules Pfeiffer, o americano Charles Schulz (Minduim) e o argentino Quino (Mafalda), o humorista gaúcho criou e delineou personagens memoráveis para cartuns, charges e tiras que ficaram impressos na memória dos leitores brasileiros. Muitos deles apareceram na coluna que assinou de 1982 a 1989 em VEJA.

Verissimo foi autor, entre outros, de Ed Mort, um detetive particular trapalhão que protagonizou tiras publicadas em jornais e álbuns de quadrinhos de 1985 a 1990, com desenhos de Miguel Paiva. Também criou As Cobras, uma série de tiras que desenhava de seu próprio punho publicada durante mais de 20 anos e que expressava seu humor e crítica social por meio dos diálogos entre duas serpentes. Outro personagem famoso é o Analista de Bagé, um psicoterapeuta heterodoxo, com desenhos de Edgar Vasques. Além disso, Veríssimo escreveu e desenhou as Aventuras da Família Brasil, retratando uma família típica de classe média com humor e ironia.

A produção artística de Verissimo unia inteligência, sarcasmo e crítica social com narrativa fluente e apurada. Assim como seus ídolos Feiffer, Schulz e Quino, ele entendia que o desenho podia ser um veículo poderoso para a sátira política e de costumes, indo além do simples humor. Por meio de traços simples e textos concisos, ele era capaz de destrinchar as complexidades da vida cotidiana e da nossa sociedade. Se nos textos seu minimalismo era cortante, nos desenhos conseguia efeito semelhante com uma combinação econômica e certeira de traços. Seu legado é um tesouro precioso, mas a falta de seu olhar clínico para o cotidiano deixará uma lacuna enorme.
