Há algo de paradoxal na paisagem econômica brasileira de 2025. Os canteiros de obras continuam de pé, estandes de vendas permanecem iluminados e concessionárias exibem vitrines reluzentes. Mas, por trás da aparência de normalidade, o motor do crédito engasga. Com a taxa básica de juros em 15% ao ano, mantida pelo Banco Central por meio do Comitê de Política Monetária, imóveis e carros novos, símbolos clássicos da ascensão da classe média, se tornaram, de novo, bens de paciência.
No mercado imobiliário, o aperto é matemático e implacável. As taxas de financiamento com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) partem de 11,29% ao ano, às quais se soma a Taxa Referencial (TR). Com a TR acumulando cerca de 1,97% em 12 meses, o custo efetivo ultrapassa 13% ao ano, sem considerar tarifas bancárias. O resultado é um financiamento que pesa no orçamento mensal e empurra potenciais compradores para a arquibancada, à espera de um ciclo de queda da Selic que ainda não começou.
O paradoxo se aprofunda quando se observa o comportamento dos preços. Em 2025, os imóveis residenciais ficaram, em média, 6,52% mais caros, segundo o índice FipeZAP, um avanço real de 2,24% acima da inflação. Ou seja, enquanto o crédito encarece, o ativo continua se valorizando. Para quem depende de financiamento, a conta simplesmente deixou de fechar.
Os números confirmam o descompasso. Entre janeiro e novembro, o volume de financiamentos imobiliários com recursos da poupança somou R$ 140,1 bilhões, queda de 17,1% na comparação anual. O total de unidades financiadas recuou mais de 20%. A poupança, base histórica do crédito habitacional, também sangrou: a captação líquida foi negativa em R$ 67,5 bilhões no acumulado do ano. Menos dinheiro captado significa menos crédito ofertado, e juros mais duros para quem ainda ousa comprar.
Não surpreende que o impacto seja desigual. O programa Minha Casa, Minha Vida segue operando como colchão social e econômico, impulsionado por subsídios e funding do FGTS. Já o segmento de médio e alto padrão, dependente do SBPE, é o mais penalizado. Um estudo da Abrainc estima que, em cinco anos de juros elevados, cerca de 800 mil famílias foram excluídas do mercado de imóveis de R$ 500 mil. A casa própria, para a classe média, voltou a ser projeto adiado.
O governo tenta abrir frestas. A liberação de parte do compulsório da poupança promete injetar cerca de R$ 35 bilhões adicionais no crédito habitacional em 2026. A atualização do teto do Sistema Financeiro da Habitação (SFH), de R$ 1,5 milhão para R$ 2,25 milhões, após sete anos de congelamento, amplia o uso do FGTS na entrada e na amortização. Ainda assim, o setor sabe que tais medidas são paliativas enquanto o preço do dinheiro permanecer proibitivo. Cada ponto percentual de queda da Selic, calcula a Abrainc, poderia trazer 160 mil novas famílias ao mercado. O problema é que o relógio dos juros anda mais devagar que o da demanda reprimida.
Se o imóvel é o sonho de longo prazo, o carro zero-quilômetro é o termômetro imediato do crédito. E ele também sente o impacto. Em 2025, a produção de veículos cresceu 3,5%, para 2,64 milhões de unidades, avanço modesto diante das expectativas iniciais. As vendas internas subiram apenas 2,1%, frustrando projeções mais otimistas da Anfavea. O diagnóstico da indústria é direto: com a Selic em 15%, o financiamento ao consumidor pessoa física chegou a taxas próximas de 27,6% ao ano.
Diante desse custo, o consumidor faz o que sempre fez quando o crédito aperta: migra para o usado. Em 2025, dos 7,3 milhões de financiamentos de veículos registrados, cerca de 4,7 milhões, o equivalente a quase dois terços do total, se destinaram a carros usados e seminovos, evidenciando a migração do consumidor para tíquetes mais baixos diante do crédito caro. O carro novo, apesar de descontos médios superiores a 7%, perdeu apelo relativo. Parcelas mais altas, entradas maiores e prazos mais curtos empurraram compradores para modelos de menor tíquete, ou para a postergação da compra.
Ainda assim, dezembro ofereceu um breve alívio estatístico. Promoções agressivas e uma intensa queima de estoques elevaram os emplacamentos para 279,4 mil veículos, o maior volume mensal em 11 anos, segundo a Anfavea. O número representou alta de 8,5% na comparação anual e de 17,1% frente a novembro, mas foi um fôlego pontual, não uma mudança de tendência. A própria Anfavea projeta para 2026 um mercado semelhante ao do segundo semestre de 2025: estável, contido e altamente sensível a qualquer sinal, ou atraso, na inflexão dos juros.
O pano de fundo internacional torna o quadro ainda mais desconfortável. Com juros reais próximos de 9,7% ao ano, o Brasil figura entre os países com o dinheiro mais caro do mundo, atrás apenas da Turquia. É uma posição que atrai capital financeiro, mas cobra seu preço em atividade econômica doméstica. O crédito encarece, o consumo esfria, o investimento hesita.
Há, claro, resiliência. Incorporadoras ajustam estoques, montadoras recorrem a exportações e descontos, bancos refinam critérios. Mas resiliência não é crescimento. Enquanto a Selic permanecer em 15%, imóveis e carros novos continuarão a ser vendidos mais por exceção do que por impulso.
No fim, a lição é antiga e pouco confortável: juros altos são um remédio amargo. Controlam a inflação, preservam a credibilidade monetária e, ao mesmo tempo, adiam decisões fundamentais das famílias. No Brasil de hoje, comprar um apartamento ou um carro novo não é apenas uma escolha financeira. É, sobretudo, um exercício de paciência macroeconômica.