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Influenciadoras afundam crise de imagem de escolas de samba

Foi-se o tempo que, para conquistar um espaço de destaque numa escola de samba, era preciso ser atriz de TV. O próximo Carnaval pode romper de vez essa máxima ao expor a quantidade nunca antes vista de musas oriundas do universo digital, as chamadas influencers. Essa organização deixa claro como as escolas seguem apostando em diferentes camadas de visibilidade digital. Rainhas de bateria concentram grande capital simbólico e midiático, já as musas ampliam o alcance nas redes e dialogam diretamente com públicos jovens. A mais famosa delas é, claro, Virginia Fonseca, que estreia como rainha de bateria da Grande Rio no lugar de Paolla Oliveira.

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O primeiro ponto é o perfil. Mesmo sem o menor gingado exigido para o samba, Virginia é uma das maiores influenciadoras do país, associada a publicidade, consumo e entretenimento digital, mas sem trajetória prévia no samba ou na escola. Para parte da comunidade e de sambistas, o cargo de rainha de bateria carrega um valor simbólico que deveria estar ligado à vivência no Carnaval, à relação com a bateria e ao pertencimento comunitário. Quando alguém “de fora” assume esse posto, surge a percepção de que o critério principal foi alcance midiático, não história ou comprometimento cultural.

O segundo fator é a hipermidiatização. A Grande Rio já é uma escola muito exposta, com forte presença de celebridades. Com Virginia, essa lógica se intensifica: críticos veem o risco de o desfile ser lido mais como “conteúdo para redes sociais” do que como expressão coletiva de uma comunidade. Isso gera incômodo porque desloca o foco do samba, do enredo e da bateria para a figura individual da rainha. Algo que contraria a ideia de que o Carnaval é, acima de tudo, um espetáculo coletivo.

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A discussão é muito além da que se imagina que ali, em seu lugar, deveria haver uma jovem da comunidade. Até porque ela substitui uma atriz, Paolla. A presença crescente de influenciadores digitais no Carnaval tem um impacto cultural complexo, ambivalente e profundamente revelador das transformações do espetáculo carnavalesco no século XXI. De um lado, ela amplia o alcance simbólico da festa: influenciadores funcionam como vetores de circulação cultural, levando o desfile para além da Sapucaí e do Anhembi, transformando ensaios, bastidores e narrativas das escolas em conteúdo contínuo nas redes sociais. Isso, em princípio, contribui para a renovação do público, aproxima jovens que não tinham vínculo com o samba e fortalece a dimensão econômica do Carnaval, atraindo patrocínios, visibilidade internacional e novas formas de financiamento para as agremiações.

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Por outro lado, essa presença tensiona valores históricos do Carnaval como tradição, pertencimento comunitário e centralidade do samba. Quando influenciadores ocupam postos simbólicos (especialmente rainhas de bateria e musas) sem trajetória na escola ou na cultura do samba, surge a crítica de que o espetáculo se desloca do coletivo para o indivíduo, do enredo para a imagem, da cadência da bateria para a lógica do engajamento digital. Esse deslocamento pode produzir um Carnaval mais midiatizado do que ritual, no qual o corpo, a performance e a estética são pensados para a câmera do celular tanto quanto para o desfile em si.

Mais ainda: há um impacto gerado na redefinição da autoridade simbólica dentro do universo do Carnaval. Influenciadores passam a disputar protagonismo com sambistas, passistas e comunidades tradicionais, revelando um choque entre dois regimes de valor: o da memória e o da viralização. Tal como um dia foi tensionado pela presença de artistas que em nada têm a ver com aquela comunidade.

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Um outro exemplo: Hariany Almeida foi ao centro das discussões do Carnaval carioca após enfrentar uma onda de críticas sobre sua atuação à frente da Imperatriz Leopoldinense em um ensaio da escola de samba. A ex-BBB, que até então ocupava posição de destaque na agremiação, tentou responder aos comentários negativos nas redes sociais, mas sua justificativa acabou gerando ainda mais repercussão entre nomes ligados ao samba. Em um vídeo publicado nas plataformas digitais, Hariany reclamou da postura do público e afirmou que a presença de influenciadoras no carnaval tem ajudado a “aproximar a festa de uma nova geração”. Mas será mesmo que é deste público que uma escola de samba precisa? Ou será que este público trazido pela influenciadora agrega algo ao contexto carnavalesco? Hariany nem chegou ao Carnaval. Diante da repercussão negativa, a escola agiu e a limou do posto.

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Em síntese, a presença digital no Carnaval não é apenas uma estratégia de marketing: ela é um sintoma cultural. As influencers hoje ocupam o espaço que um dia foi dado a famosas modelos e atrizes de novelas. Luma de Oliveira, Luiza Brunet e Monique Evans, para citar apenas três das mais icônicas rainhas dos anos 1990, não eram de comunidade, mas viviam tão intensamente os ensaios e o dia a dia daquelas escolas que defendiam, que misturaram suas trajetórias pessoais às conquistas das agremiações. Tanto que são lembradas até hoje por onde sambaram. Tudo isso expõe disputas sobre quem pode representar a festa, quais corpos e narrativas ganham visibilidade e como a cultura popular negocia sua sobrevivência num ecossistema mediado por algoritmos, agora, digitais.

Novos cancelamentos

A influenciadora Rayane Figliuzzi, assim como Hariany, caiu do posto antes mesmo de defender a Vila Isabel no Carnaval. A decisão da escola em destroná-la em dezembro ocorreu devido à impossibilidade de a influenciadora cumprir com as agendas e compromissos necessários para o cargo. Porém, um comentário racista que teria sido proferido por ela a uma assessora é apontado como real motivo do seu desligamento. Logo, a escola mencionou a importância de reafirmar seus valores de respeito e combate à discriminação, após incidentes recentes envolvendo a influenciadora e sua equipe.

O desafio das escolas, portanto, não é excluir influenciadoras, mas reinscrever sua participação dentro de uma ética de pertencimento, respeito e continuidade cultural, preservando o Carnaval como patrimônio vivo, e não apenas como conteúdo viral. Aí mora o problema. Como fazer isso diante do fascínio aparente que as influencers prometem trazer ao mundo do samba? Mais engajamento, mais publicidade, mais patrocinadores e mais torcida num rejuvenescimento de público até então apartado daquela realidade. Por enquanto, só promessas mesmo. Vejamos como elas se saíram na Avenida ‘real” muito em breve.

Abaixo a lista de influenciadores e personalidades digitais do Carnaval 2026 por tipo de participação:

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Rainhas de bateria:

  • Virginia Fonseca — Grande Rio
  • Mileide Mihaile — Unidos da Tijuca

Musas:

  • Gkay — Salgueiro (RJ) e Camisa 10 (SP)
  • Brunna Gonçalves — Grande Rio
  • Bruna Griphao — Salgueiro
  • Cíntia Dicker — Salgueiro
  • Gabi Martins — Vila Isabel
  • Ray Figliuzzi — Vila Isabel
  • Luiza Caldi — Vila Isabel
  • Lore Improta — Viradouro
  • Lorena Maria — Unidos de Padre Miguel (Série Ouro)
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