A retaliação da União Europeia ao novo “tarifaço” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é mais cirúrgica que a taxação americana, dizem analistas ouvidos por VEJA nesta segunda-feira, 19. Os ministros das Finanças da França e da Alemanha disseram nesta manhã que o bloco europeu pode chegar a um consenso sobre uma possível taxação de 93 bilhões de euros sobre produtos americanos.
A relação transatlântica ficou abalada após Trump afirmar que os interesses americanos incluem anexar a Groenlândia. Na manhã desta segunda, Trump afirmou que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) tem pedido à Dinamarca que afaste a suposta ameaça russa na Groenlândia. “Infelizmente, a Dinamarca não conseguiu fazer nada a respeito. Agora chegou a hora, e isso será feito!”, escreveu Trump.
O republicano tem repetido que os EUA precisam da Groenlândia, território rico em terras raras e, segundo ele, “vital” para o Iron Dome (Domo de Ferro), o sistema antimísseis que pretende construir. Autoridades dinamarquesas e americanas se reuniram na última semana, mas não chegaram a um acordo.
Em meio às ameaças de Trump, países europeus enviaram tropas para a ilha no Atlântico Norte, entre eles Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia. Em resposta ao envio de tropas, Trump anunciou uma tarifa de 10% para oito países europeus caso se oponham à anexação. Os ministros das Finanças da França e da Alemanha disseram que o bloco deve discutir, em reunião em Bruxelas na próxima quinta-feira, um pacote de respostas.
Uma das alternativas é um pacote de tarifas sobre 93 bilhões de euros (US$ 107,7 bilhões) em importações dos EUA, que poderia entrar em vigor em 6 de fevereiro, após uma suspensão de seis meses. “Nós, europeus, precisamos deixar claro: o limite foi atingido”, disse Lars Klingbeil. “Nossa mão está estendida, mas não estamos dispostos a ser chantageados”, acrescentou o ministro.
Qual será o impacto das tarifas?
Marisa Rossignoli, conselheira do Corecon-SP, lembra que a tarifa foi anunciada a partir de 1º de fevereiro para a Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia, e deve subir para 25% em 1º de junho sobre todos os produtos.
Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil, diz que os setores automotivo, farmacêutico e de luxo seriam os mais impactados na Europa, pois são as maiores exportações do velho continente para Washington. Na visão de Praça, as novas tarifas de Trump podem custar US$ 30 bilhões por ano à economia europeia; o número é baseado em dados de exportações passadas.
Já o pacote europeu deve atingir setores como petróleo, automóveis, agronegócio, vestuário, aeronáutica, máquinas e equipamentos e bebidas alcoólicas. Marisa Rossignoli afirma que ambas as medidas são agressivas e que não vê ganhos para nenhum dos lados com a guerra tarifária.
Marcos Praça aponta que os EUA têm um pacote mais amplo, enquanto a UE ameaça um ataque econômico mais cirúrgico para atingir a ferida sem prejudicar tanto o mercado doméstico. “De um modo geral, a tarifa aplicada pelos EUA é mais agressiva, uma vez que pode chegar a 25%”, salienta Praça.