O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deu um giro de 180 graus nesta quinta-feira, 8, ao excluir as autoridades de Minnesota de uma investigação sobre o caso em que um agente do ICE, a polícia de imigração, matou a tiros uma cidadã americana no estado, após uma confusão em uma blitz.
O Ministério Público Federal afirmou que “havia mudado de posição” e não permitiria mais que o Departamento de Investigação Criminal de Minnesota “tivesse acesso aos materiais do caso, às evidências da cena do crime ou às entrevistas investigativas”. As informações foram divulgadas em comunicado do superintendente do órgão estadual, Drew Evans, que confirmou o afastamento de seu departamento do caso “a contragosto”.
Inicialmente, o Departamento de Investigação Criminal de Minnesota ficou a cargo de realizar uma investigação conjunta com o FBI após consultar o Ministério Público do Condado de Hennepin e o Ministério Público Federal no dia anterior. Agora, apenas o FBI estará à frente do inquérito.
“Sem acesso completo às evidências, testemunhas e informações coletadas, não podemos atender aos padrões investigativos exigidos pela lei de Minnesota e pelo público”, afirmou Evans. “Caso o Ministério Público Federal e o FBI reconsiderem essa abordagem e demonstrem disposição para retomar a investigação conjunta, o BCA está preparado para se envolver novamente, em apoio ao nosso objetivo comum de segurança pública em Minnesota”, acrescentou Evans no comunicado.
O caso
Renee Nicole Macklin Good, de 37 anos, foi baleada na cabeça durante uma ampla operação de fiscalização migratória que mobilizou centenas de funcionários federais na capital de Minnesota, Minneapolis.
Mãe de três filhos, ela dirigia por um bairro residencial ao sul do centro da cidade — a apenas 1,6 km de onde George Floyd foi assassinado por um policial em 2020, desencadeando o movimento Black Lives Matter — quando foi morta. No vídeo, é possível ver que ela acelera quando agentes, de maneira agressiva, se aproximam do seu carro. Em seguida, um deles saca a arma e dispara pela janela, que estava aberta, na direção do rosto da mulher. Ao fundo, uma testemunha que gravou o momento, grita: “Meu Deus, que p*rra você acabou de fazer?”.
Em resposta, o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) alegou que Renee “tentou atropelar (os agentes) com seu veículo” em um “ato de terrorismo doméstico”, o que teria levado o homem a agir em legítima defesa. O vídeo mostra outra coisa: ela dirigia o SUV para o lado oposto ao do agente, sem que ele estivesse na mira.
Emily Heller, testemunha que afirmou que o incidente ocorreu perto de sua casa, disse à Rádio Pública de Minnesota que ouviu agentes do ICE gritarem à motorista: “Saia daqui”. Heller relatou que “ela (a vítima) estava tentando dar a volta, e o agente do ICE estava na frente do carro dela, e ele sacou uma arma e encostou-se bem no para-choque dela, e ele se inclinou sobre o capô do carro e atirou no rosto dela umas três ou quatro vezes”.
A versão do governo de Donald Trump foi recebida com indignação pelo prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, que qualificou a acusação de terrorismo doméstico como “absurda”.
“Eles já estão tentando distorcer isso, alegando ser um ato de legítima defesa. Tendo visto o vídeo, quero dizer a todos diretamente: isso é uma grande mentira”, disse o prefeito, enquanto criticava o envio de mais de 2.000 agentes federais para as cidades gêmeas de Minneapolis e St. Paul como parte de uma campanha de repressão à imigração.
O caso provocou protestos relâmpago na noite de quarta-feira e nesta quinta em cidades ao redor dos Estados Unidos, com cartazes que diziam: “O povo demanda a saída do ICE”. Vigílias com velas em homenagem a Renee também pipocaram por Minneapolis.
O ex-marido da mulher afirmou que ela era uma mãe dedicada e cristã devota, que participou de viagens missionárias para jovens na Irlanda do Norte. As escolas públicas de Minneapolis cancelaram as aulas, os esportes e as atividades até sexta-feira, 9, “devido a preocupações com a segurança relacionadas aos incidentes ocorridos hoje na cidade”.