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Governo avalia crise na Venezuela e ministro da Defesa diz que fronteira segue aberta

O governo brasileiro fez sua primeira avaliação da situação após ataques dos Estados Unidos à Venezuela, neste sábado, 3, que resultaram na “captura” do presidente Nicolás Maduro.

Após reunião convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro da Defesa, José Múcio, afirmou que a fronteira do Brasil com a Venezuela segue aberta, por parte do Brasil, e que há efetivo suficiente para manter a segurança na travessia. Mais cedo, a fronteira terrestre, de mais de 2.000 quilômetros de extensão, havia sido fechada do lado venezuelano.

Em Pacaraima, Roraima, imagens divulgadas nas redes sociais mostravam militares posicionados perto de cones que bloqueavam o acesso.

Uma nova reunião emergencial do governo brasileiro será feita no fim da tarde deste sábado.

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+ Ataques dos EUA e captura de Maduro ultrapassam ‘linha inaceitável’, diz Lula

No momento, a avaliação é de que instabilidades em território da Venezuela podem gerar impactos diretos sobre o Brasil, sobretudo na região Norte do país.

Em nota, o Ministério da Justiça disse se preparar para receber um aumento de refugiados da Venezuela.  Dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), órgão ligado à pasta, já mostravam um aumento no número de venezuelanos que entraram no Brasil após as primeiras operações americanas na região, em setembro.

‘Afronta gravíssima’

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se manifestou neste sábado, 3, sobre os ataques dos Estados Unidos contra território venezuelano, que levaram à “captura” de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores.

Em nota, Lula afirmou que os atos “ultrapassam uma linha inaceitável”, representando uma “afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”.

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“Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo. A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões”, disse o presidente em texto. 

A ação, segundo Lula, ecoa “os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz”.

“A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação”, acrescenta o texto. 

Os ataques americanos, que levaram à captura do presidente Nicolás Maduro, ocorreram nas primeiras horas deste sábado em Caracas e arredores. Autoridades venezuelanas também relataram ataques a alvos nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira.

Pouco antes das 2h da manhã, horário local, as primeiras explosões foram ouvidas sobre Caracas, juntamente com o som de aeronaves sobrevoando a capital, segundo relatos do New York Times. Bombardeios aéreos foram relatados em Fuerte Tiuna, a principal base militar de Caracas, localizada ao sul da cidade, que ficou completamente sem energia. Ataques também ocorreram no Quartel de la Montaña e na Base Aérea de La Carlota.

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Em uma curta entrevista ao jornal The New York Times, Donald Trump afirmou que a operação foi “brilhante”: “Planejamento bem-feito e tropas e pessoas excelentes, excelentes”, disse Trump. “Foi uma operação brilhante, na verdade.”

Segundo reportagem da emissora americana CNN, Maduro e a primeira-dama Cilia Flores foram arrastados do quarto em que estavam por militares americanos durante a madrugada. À agência de notícias Associated Press, o líder do partido governista venezuelano, Nahum Fernández, disse que ambos estavam na residência dentro do complexo militar do Forte Tiuana.

A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou que Caracas não sabe o paradeiro de Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. Em pronunciamento à rede pública VTV, Rodríguez exigiu “prova de vida imediata do governo do presidente Donald Trump sobre as vidas do presidente Maduro e da primeira-dama”.

+ Ministro da Defesa da Venezuela promete resistir à ‘invasão’ dos EUA, após ataques contra Maduro

Em entrevista à Fox News, Trump afirmou que Maduro está a bordo do navio de guerra americano Iwo Jima e segue para Nova York, onde será julgado. Mais cedo, a secretária de Justiça dos Estados Unidos, Pam Bondi, afirmou que o presidente da Venezuela “em breve enfrentará a força total da Justiça americana, em solo americano e em tribunal americano”.

Escalada de tensão

No final de outubro, Trump revelou que havia autorizado a CIA a conduzir operações secretas dentro da Venezuela, aumentando as especulações em Caracas de que Washington queria derrubar Nicolás Maduro. Fontes próximas à Casa Branca afirmam que o Pentágono apresentou a Trump diferentes opções, incluindo ataques a instalações militares venezuelanas — como pistas de pouso — sob a justificativa de vínculos entre setores das Forças Armadas e o narcotráfico.

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Os EUA acusam Maduro de liderar o Cartel de los Soles — designado como organização terrorista estrangeira em novembro — e oferecem uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levem à captura do chefe do regime chavista. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, também foi acusado por Trump de ser “líder do tráfico de drogas” e “bandido”. Em paralelo, intensificam-se os ataques a barcos de Organizações Terroristas Designadas, como define o governo americano, no Caribe e no Pacífico. Ao menos 83 tripulantes foram mortos.

Em novembro, militares americanos de alto escalão apresentaram opções de operações contra Caracas a Trump. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, e outros oficiais entregaram planos atualizados, que incluíam ataques por terra. Segundo a emissora CBS News, a comunidade de Inteligência dos EUA contribuiu com o fornecimento de informações para as possíveis ofensivas na Venezuela, que variam em intensidade.

O planejamento militar ocorre em meio à crescente mobilização militar americana na América Latina e ao aumento das expectativas de uma possível ampliação das operações na região, em atos considerados “execuções extrajudiciais” pela Organização das Nações Unidas (ONU). Além do porta-aviões, destróieres com mísseis guiados, caças F-35, um submarino nuclear e cerca de 6.500 soldados foram despachados para o Caribe, enquanto Trump intensifica o jogo de quem pisca primeiro com o governo venezuelano.

Os incidentes geraram alarme entre alguns juristas e legisladores democratas, que denunciaram os casos como violações do direito internacional. Em contrapartida, Trump argumentou que os EUA já estão envolvidos em uma guerra com grupos narcoterroristas da Venezuela, o que torna os ataques legítimos. Autoridades afirmaram ainda que disparos letais são necessários porque ações tradicionais para prender os tripulantes e apreender as cargas ilícitas falharam em conter o fluxo de narcóticos em direção ao país.

Dados das Nações Unidas enfraquecem o discurso de caça às drogas. O Relatório Mundial sobre Drogas de 2025 indica que o fentanil — principal responsável pelas overdoses nos EUA — tem origem no México, e não na Venezuela, que praticamente não participa da produção ou do contrabando do opioide para o país. O documento também aponta que as drogas mais usadas pelos americanos não têm origem na Venezuela — a cocaína, por exemplo, é consumida por cerca de 2% da população e vem majoritariamente de Colômbia, Bolívia e Peru.

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Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada no mês passado revelou que apenas 29% dos americanos apoiam o uso das Forças Armadas dos Estados Unidos para matar suspeitos de narcotráfico, sem o devido processo judicial, uma crítica às ações de Trump. Em um sinal de divisão entre os apoiadores do presidente, 27% dos republicanos entrevistados se opuseram à prática, enquanto 58% a apoiaram e o restante não tinha opinião formada. No Partido Democrata, cerca de 75% dos eleitores são contra as operações, e 10% a favor.

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