Os mais velhos, que viveram tempos anteriores ao nascimento da internet e do telefone celular, olham para o mundo digital – ora com fascínio, ora com inquietação – como testemunhas de uma revolução. A geração Z, a primeira nativa digital, não viu nenhuma “transformação”: o mundo das telas é o mundo tal qual ele é. Experiências, vida social, trabalho, relacionamentos afetivos, a construção da identidade, tudo passa, inexoravelmente, pelo ambiente digital. O desafio que se impõe é compreender como esse ambiente pode amplificar angústias que, de uma forma ou de outra, sempre acompanharam o ser humano – particularmente na adolescência e na juventude – e encontrar meios de enfrentar quadros de ansiedade, burnout, depressão, autolesão e suicídio entre jovens nesse cenário.
É preciso ter em mente que o sofrimento psíquico é, na maior parte das vezes, um reflexo do mundo em que vivemos: como lidar com insegurança no trabalho – exigência de produtividade, mudanças tecnológicas incessantes e fragilidade da proteção social –, crise climática e o medo crescente de epidemias e de doenças graves, como câncer e Alzheimer, entre tantos outros problemas do nosso tempo? Diagnósticos individuais ou fragilidades pessoais, em grande medida, são respostas às condições materiais da vida em sociedades marcadas por instabilidade e pressão.
Na opinião do psicólogo americano Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa, a hiperconexão e o uso intensivo de celulares são os fatores determinantes da epidemia de transtornos mentais entre jovens. Ele embasa seu raciocínio no aumento significativo de problemas de saúde mental entre jovens, entre os quais maior incidência de automutilação, dificuldades de atenção, privação de sono, ansiedade e depressão, desde 2010, quando se popularizaram os smartphones. Sua análise ilumina o impacto do ambiente digital na formação de adolescentes e crianças, mostrando como a vida online altera padrões de convivência. É preciso reconhecer, no entanto, que o celular e a internet não atuam isoladamente. Eles são parte de um processo mais amplo de transformações sociais. A conectividade potencializa angústias, mas não explica sozinha o adoecimento da geração Z.
Não se trata, portanto, de recomendar aos jovens apenas que passem “menos tempo diante de telas”, embora seja tentador fazê-lo e nos pareça em alguma medida correto. Penso que seja necessário compreender como a hiperconexão intensifica angústias que sempre acompanharam a juventude, como comparações constantes, pressão por desempenho, sensação de insuficiência. Precisamos encontrar novas formas de escuta e de acolhimento, que sejam compatíveis com o mundo que os jovens conhecem. Não parece factível fazer a roda do tempo andar para trás. Soa simplista e bastante pessimista atribuir somente às telas o adoecimento da geração Z – ou dar a elas um peso excessivo na equação – quando é a sociedade contemporânea que exige velocidade, exposição e produtividade permanentes.
Isso não quer dizer, é claro, que a hiperconexão não desempenhe um papel nesse cenário. Pode-se dizer que ela funciona como catalisador de angústias. A superexposição requer dos jovens uma estrutura emocional que eles ainda não têm. Nesse ambiente, o fenômeno do bullying, por exemplo, pode ganhar dimensões catastróficas. O mesmo vale para transtornos alimentares e efeitos de uso de anabolizantes, decorrentes da busca de um ideal de beleza. As pressões constantes por desempenho e sucesso e as temidas comparações se amplificam exponencialmente nas redes sociais, mas essas exigências estão ancoradas no sistema de valores da sociedade. Caberia perguntar até que ponto a sociedade que criamos, com suas guerras, conflitos, intolerâncias e desigualdades, nos adoece a todos.
Muita gente enfrenta as incontáveis pressões cotidianas por meio de fármacos (para dormir, para aumentar a concentração, para aliviar dores etc.). Nosso sofrimento tem sido cada vez mais medicalizado e, entre os jovens, é frequente que angústias, comportamentos dissonantes, desatenção ou mesmo a tristeza sejam igualmente tratados com remédios. Se transformamos respostas normais às tensões da vida em diagnósticos clínicos, inflamos estatísticas de ansiedade e depressão e reforçamos a ideia de que o problema está no indivíduo. Quando muitos indivíduos têm os mais variados diagnósticos de transtorno, perdemos de vista o conceito de normalidade.
Por outro lado, a tendência a buscar um diagnóstico, ainda que desloque o olhar das causas estruturais do adoecimento, pode ampliar o acesso a cuidados, o que é positivo. A geração Z, é bom que se diga, rompeu o tabu relativo à saúde mental. Em tempos nem tão distantes, quem tomasse uma medicação de “tarja preta” costumava manter segredo sobre o fato, com receio de ser tachado de “louco” e estigmatizado. Nesse ponto, houve uma evolução significativa no reconhecimento de que a saúde mental é tão importante quanto a saúde física e, naturalmente, deve ser tratada.
Precisamos cuidar dos nossos jovens, ouvi-los, entender seus anseios e preocupações, mas sem demonizar a tecnologia, que, afinal, é a concretização do sonho das gerações anteriores. O grande desafio que temos pela frente passa por uma educação com princípios humanistas, que incentive o diálogo, o respeito e a paz. Esse pode ser um remédio eficaz para nossa sociedade.