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Estudo inédito aponta resposta sobre dilema do uso da aspirina após infarto; saiba mais

MADRI* – Ao acompanhar pacientes que sofreram um infarto, cardiologistas ao redor do mundo se deparam com o dilema do momento adequado para interromper o uso da aspirina, medicamento utilizado para evitar a formação de coágulos nas artérias e, consequentemente, não permitir que apareçam obstruções causadoras de novos ataques cardíacos. Embora crucial para prevenir episódios graves, o remédio abre portas para sangramentos potencialmente perigosos para os recém-infartados. Mas uma abrangente pesquisa realizada por brasileiros acaba de trazer um norte para os profissionais de todo o mundo ao indicar que a suspensão precoce não é segura para os pacientes. A conclusão foi apresentada como um dos destaques na principal mesa da reunião anual da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC, na sigla em inglês), realizada em Madri e que reúne 30 mil profissionais.

O estudo NEO-MINDSET começou a ser desenhado em 2017 e a inclusão dos pacientes teve início em 2020. Ele foi conduzido por um grupo do Einstein Hospital Israelita com 3.410 pacientes que foram acompanhados por 12 meses após um infarto agudo do miocárdio. No tratamento vigente, além de aspirina (o ácido acetilsalicílico ou AAS), pessoas que infartaram são medicadas com um antiplaquetário por, ao menos, um ano. Depois, seguem com o AAS.

“Usar dois antiplaquetários reduz a chance de uma nova obstrução, mas aumenta o risco de sangramento. Então, surgiu a dúvida: será que precisamos mesmo da aspirina?”, explica Pedro Lemos, diretor do programa de cardiologia e pesquisador do Einstein.

Há uma tendência de reduzir cada vez mais o tempo de administração da aspirina, remédio conhecido por “afinar o sangue”, com o objetivo de evitar sangramentos que podem, por exemplo, afetar o estômago ou causar hemorragias em eventuais cirurgias ou acidentes. A meta era descobrir se era seguro seguir com essa nova abordagem logo depois do infarto, um dado ainda desconhecido. “Ninguém tinha testado a possibilidade de não usar aspirina desde o início. Foi isso que resolvemos investigar”, diz Lemos, que é o autor sênior do ensaio.

O grupo analisou dois grupos de pessoas que sofreram infarto e foram submetidas ao procedimento de angioplastia com stent, a desobstrução da artéria para retomada do fluxo sanguíneo. Metade dos voluntários recebeu o tratamento padrão, conhecido como dupla antiagregação plaquetária, e a outra parte foi tratada com um antiplaquetário potente (prasugrel ou ticagrelor).

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Os pesquisadores constataram que continuar utilizando a aspirina associada ao antiplaquetário é a decisão mais segura por ter um efeito protetor cardiovascular, evitando desfechos mais graves, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC) ou necessidade urgente de nova revascularização, em um momento em que os pacientes estão mais frágeis.

“Demoramos 40 anos para descobrir como proteger o coração. Se aumenta o risco de reinfarto e AVC, faz diferença, mesmo quando é sutil”, afirma o pesquisador. “Se existe um dilema, qual é o mais importante? No caso, é não reinfartar.”

Com a suspensão do medicamento, houve queda nos sangramentos, totalizando incidência de 2% no grupo sem o AAS e 4,9% entre os que receberam o tratamento convencional. O problema é que mudar o protocolo tirou a proteção contra eventos cardiovasculares graves. Sem a aspirina, o índice desses quadros foi de 7% e, com o remédio, foi de 5,5%. O número de casos de trombose de stent, um tipo de complicação, também foi maior no novo regime (12 casos) em relação ao grupo da terapia dupla (quatro registros). Esses casos ocorreram, principalmente, no primeiro mês após o ataque cardíaco.

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Esses resultados vão ajudar a nortear as decisões de cardiologistas ao redor do mundo sobre o uso da aspirina, considerando o risco de sangramento, que ainda não pode ser evitado, mas manejado com medidas preventivas, como medicações para proteção gástrica e cuidado com quedas.

Destaque internacional

Além de ser apresentado em posto de destaque no congresso, o estudo brasileiro foi selecionado para publicação no renomado periódico científico New England Journal of Medicine.

A pesquisa, realizada em parceria com o Ministério da Saúde por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), envolveu 50 centros hospitalares espalhados pelo país, sob coordenação do Academic Research Organization (ARO) do Einstein, e traz diversidade de participantes, fator considerado importante na pesquisa científica por não limitar os achados para populações específicas.

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“É um estudo feito no Brasil, com diversidade e sem conflito de interesses, incluindo 30% de mulheres, indígenas e muitos pacientes não brancos. Isso faz com que os resultados possam ser aplicados em diferentes países, ao contrário de estudos feitos em populações mais homogêneas”, explica Patrícia Guimarães, pesquisadora do Einstein.

Lemos não deixou de expressar orgulho pelos resultados e pelo reconhecimento da comunidade científica. “O que nós temos aqui é a ciência cardiovascular do Brasil contribuindo para a ciência do mundo na coisa mais difícil que tem de ser competitivo, porque infarto é o problema mais relevante no mundo. É como se a gente tivesse uma Nasa no Brasil e estivéssemos competindo na corrida espacial contra os Estados Unidos. Então, o fato de nós estarmos aqui no congresso europeu e no New England mostra o potencial da ciência cardiovascular do Brasil. Isso é muito significativo.”

*A repórter viajou a convite da Novo Nordisk

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