Um dia após a captura de Nicolás Maduro em Caracas, o governo dos Estados Unidos reforçou o discurso de força sobre a América Latina e afirmou que não permitirá ameaças à sua segurança no Hemisfério Ocidental.
Em publicação nas redes sociais nesta segunda-feira (5), o Departamento de Estado divulgou a frase “Este é o nosso hemisfério”, associando a operação militar na Venezuela à estratégia de segurança do presidente Donald Trump.
A mensagem foi divulgada na plataforma X em inglês e espanhol, acompanhada de uma imagem em preto e branco de Trump, com a palavra “nosso” destacada em vermelho.
Segundo a legenda, o presidente americano não aceitará que a região se torne base de atuação de narcotraficantes, aliados do Irã ou “regimes hostis” aos interesses dos EUA.
A Casa Branca endossou o tom ao publicar um artigo atribuindo a frase ao secretário de Estado, Marco Rubio, que concedeu entrevistas a emissoras americanas ao longo do dia.
Rubio afirmou que Washington tem um “compromisso inquebrantável” com a segurança regional e que a ofensiva contra Maduro não teve motivação econômica. “Não se trata de assegurar poços de petróleo”, disse.
A retórica remete à histórica Doutrina Monroe, formulada no século 19, segundo a qual os Estados Unidos se atribuem o papel de guardiões políticos do continente. Analistas ouvidos por veículos como The New York Times e BBC afirmam que o discurso marca uma inflexão ainda mais dura da política externa americana para a América Latina no segundo mandato de Trump.
Maduro é acusado pela Justiça dos EUA de narcoterrorismo, tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro e conspiração com grupos armados estrangeiros. Ele e a mulher, Cilia Flores, foram capturados no sábado (3) em uma operação militar realizada sem aviso prévio em Caracas e levados a Nova York. Em audiência nesta segunda, ambos se declararam inocentes. Maduro afirmou ainda se considerar o “presidente legítimo” da Venezuela e um “prisioneiro de guerra”.
A ofensiva provocou reação imediata do governo venezuelano. Poucas horas após a prisão, o Tribunal Supremo de Justiça nomeou a vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina, com a missão de garantir a “continuidade institucional”. As Forças Armadas reconheceram a decisão e anunciaram apoio à nova liderança por um período inicial de 90 dias.
Trump, por sua vez, declarou que os Estados Unidos estão “no comando” da situação na Venezuela, embora tenha evitado afirmar explicitamente que Washington governa o país. “Estamos lidando com as pessoas que acabaram de assumir”, disse. Pressionado, respondeu: “Isso significa que nós estamos no comando”.
A operação também acirrou o isolamento internacional dos EUA. Em reunião do Conselho de Segurança da ONU, China e Rússia classificaram a ação como “ilegal” e “imperialista”, enquanto países latino-americanos, entre eles o Brasil, expressaram preocupação com a violação da soberania venezuelana.
Segundo a chancelaria brasileira, o episódio aprofunda a instabilidade regional e cria um precedente perigoso.
Internamente, a Venezuela vive dias de incerteza. Há relatos de aumento da presença militar nas ruas de Caracas, filas em postos de combustível e temor de novos confrontos.
Desde a eleição contestada de 2024, rejeitada por mais de 50 países por falta de transparência, o país enfrenta um vácuo de legitimidade política, agora agravado pela retirada forçada de Maduro do poder.
Para observadores internacionais, a captura do líder chavista marca um ponto de ruptura na crise venezuelana e inaugura uma fase de imprevisibilidade, tanto para o futuro do país quanto para o equilíbrio político do continente.
This is OUR Hemisphere, and President Trump will not allow our security to be threatened. pic.twitter.com/SXvI868d4Z
— Department of State (@StateDept) January 5, 2026