A liquidação extrajudicial da corretora Reag Investimentos, decretada pelo Banco Central nesta quinta-feira, fecha um círculo que vinha se formando havia meses no mercado financeiro brasileiro. O caso não surge de forma isolada. Ele se conecta diretamente ao colapso do Banco Master e às investigações da Polícia Federal que expõem um padrão recorrente: o uso de estruturas sofisticadas de mercado para operações opacas, de alto risco e, em alguns casos, com indícios claros de fraude e lavagem de dinheiro.
À primeira vista, Reag e Master ocupavam posições distintas no sistema. O Master, controlado por Daniel Vorcaro, era um banco de médio porte que cresceu rapidamente ao vender produtos estruturados e carteiras de crédito agressivas. A Reag, fundada por João Carlos Mansur, atuava como administradora fiduciária e gestora de fundos, uma engrenagem essencial na indústria de investimentos. O elo entre as duas, porém, se tornou central na segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta semana, que colocou sob investigação justamente as transações entre o banco e fundos administrados pela Reag.
O relatório do Banco Central encaminhado ao Tribunal de Contas da União descreve um conjunto de operações realizadas pelo Master entre julho de 2023 e julho de 2024 que somam 11,5 bilhões de reais. Parte relevante desse montante envolvia fundos sob administração da Reag. Segundo o Banco Central, as operações apresentavam indícios de fraude e falhas graves de governança. A suspeita é de que esses fundos tenham sido utilizados como veículos para pulverização de recursos em nome de terceiros, os chamados “laranjas”. Entre os instrumentos citados estão o Bravo 95 Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado e o D Mais Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, ambos administrados pela Reag. Na prática, fundos desse tipo podem funcionar como caixas-pretas: estruturas legais, com aparência regular, mas usadas para circular recursos de origem duvidosa, diluindo rastros e dificultando a supervisão.
Esse padrão não é novo no histórico da Reag. A gestora já havia sido alvo da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC no mercado financeiro. Segundo o Ministério Público, quase US$ 10 bilhões teriam sido lavados por meio de fundos de investimento – muitos deles exclusivos, com um único cotista, descritos pelos investigadores como possíveis “fundos de fachada”. Quase uma dúzia desses fundos era administrada ou gerida pela Reag, mais do que por qualquer outra instituição envolvida no caso.
O Banco Master aparece nesse enredo como o polo bancário dessa arquitetura. Com cerca de 63 bilhões de reais em ativos financeiros antes da intervenção, o banco foi liquidado após a Polícia Federal apontar suspeitas de fraude na venda de carteiras de crédito ao Banco de Brasília, em operações que somaram 12,2 bilhões de reais. Desde novembro, quando o escândalo veio a público e Vorcaro foi preso, o caso passou a ganhar contornos políticos e institucionais mais amplos. Vieram à tona conexões do banqueiro com figuras influentes de diferentes espectros ideológicos e também no meio jurídico, inclusive no entorno do Supremo Tribunal Federal.