O empresário Renê da Silva Nogueira Júnior, 47, que matou o gari Laudemir de Souza Fernandes em 11 de agosto foi indiciado pela polícia nesta sexta-feira, 29, pelos crimes de homicídio duplamente qualificado, ameaça e porte ilegal de arma de fogo de uso permitido, que podem levá-lo, caso condenado, a 35 anos de prisão.
De acordo com os investigadores da polícia, “todas as investigações confirmaram a autoria” do crime por parte de Nogueira Júnior. Além disso, os agentes também desconsideraram a declaração dada por ele em depoimento de que não sabia que havia matado alguém. Na última terça-feira, 26, o empresário divulgou uma carta na qual diz que morte de gari foi ‘acidente’ e ‘mal-entendido’.
“Ele apresentou uma versão na qual confessou ter disparado a arma de fogo, mas disse que não sabia que havia praticado um crime de homicídio. Nós conseguimos desqualificar essa declaração, justamente porque apuramos que ele teve ciência do que praticou e estava pesquisando sobre. Após o crime, já no início da tarde, após ele sair da empresa e ir para casa, ele realizou diversas pesquisas no celular referentes às consequências do que ele havia praticado”, afirmou o delegado responsável pelo caso, Matheus Moraes Marques. “Não encaramos como uma confissão, mas como uma versão dos fatos que ele deu”, completou.
“Fica claro, com base no comportamento do investigado, isso foi amplamente apurado e está nos autos, que ele tinha fascínio pelo poder que o armamento o concedia. Ele se embriagava com o poder das armas e fazia uso delas com frequência. Na situação em que ele atirou contra o Laudemir, ele estava demonstrando poder, porque ele julgou que a pressa que tinha era mais importante do que o trabalho que os garis realizavam”, acrescentou o delegado.
Os investigadores disseram que também chegaram a perceber o fascínio de Nogueira Júnior por outras formas de poder, tendo encontrado diversas fotos dele exibindo o distintivo da mulher dele, a delegada Ana Paula Lamego Balbino.
Inclusive, a arma utilizada para matar o gari pertencia a ela, que também passou a ser investigada quando os policiais perceberam que ela tinha ciência de que o marido usava sua pistola.
Com o fim das investigações, Balbino também foi indiciada à Justiça pelo crime de porte ilegal da arma de fogo de uso permitido, já que a lei prever que a pessoa que possui porte não pode jamais ceder ou emprestar a arma a alguém sem porte. O crime tem pena prevista de dois a quatro anos de prisão, mas, caso ela seja condenada, a pena pode ser elevada em 50% pelo fato dela ser servidora pública.
A delegada está afastada da Polícia Civil desde o dia 18 de agosto (uma semana após o crime), quando pediu uma licença de saúde de 60 dias (concedida a publicada no Diario Oficial do Estado no dia 23). A corporação também conduz um inquérito disciplinar próprio contra ela para apurar todos os fatos.
Como foi o crime
O assassinato do gari aconteceu no bairro de Vista Alegre, zona oeste da capital mineira, na manhã do dia 11 de agosto. Nogueira Junior estava dirigindo um carro elétrico da marca BYD — cujos modelos mais modestos custam em torno de 100.000 reais — quando começou a discutir com o gari, exigindo que o caminhão de lixo lhe desse passagem. O empresário sacou uma arma e atirou contra o trabalhador, que chegou a ser socorrido, mas não resistiu.
Nogueira Junior deixou o local e foi à academia para se exercitar, local onde foi encontrado e preso em flagrante. De acordo com a Polícia Civil, três pessoas reconheceram o empresário.
Por ter afirmado que usou a arma da esposa, que é delegada de polícia, ela está sendo investigada, por meio de procedimento disciplinar.
Diante da repercussão nacional do crime, os perfis de Nogueira Junior nas redes sociais foram apagados. Porém, circulam prints e imagens do empresário ostentando uma vida de alto padrão ao lado da esposa. Ele próprio se definia como “christian, husband, father & patriot” (em tradução para o português: “cristão, marido, pai e patriota”) no seu perfil no Instagram, onde ele colecionava quase 30 mil seguidores. No Linkedin, ele se apresentava como CEO de uma empresa de alimentos.