As regras da disputa parecem simples. Quem segurar um caneco de um litro de cerveja com o braço estendido por mais tempo ganha. Não vale dobrar o cotovelo, nem arquear o corpo, e nem mesmo usar o outro braço como apoio adicional. Quem ficar mais tempo pode escolher o prêmio: um litro de cerveja para beber no restaurante ou uma garrafa para levar para casa. Ao meu lado, um homem na faixa dos 50 anos já começa a contar vantagem. A disputa do caneco de cerveja é uma das tradições do Biergarten Pomerânia, o mais badalado restaurante de Pomerode, em Santa Catarina. A competição acontece quase todos os dias, no almoço e no jantar, e vem de uma tradição alemã. Com um sinal, o tempo começa a contar. O recorde da casa é de uma mulher que segurou a caneca por mais de 10 minutos. Logo de cara fica claro que nenhum dos 10 competidores atuais chegará perto da marca. Com o líquido, a caneca pesa cerca de dois quilos – mas parece bem mais. Depois de um minuto, o homem que contava vantagem é o primeiro a desistir. Outros desistem na sequência – até alguns fortões da academia. O vencedor é um rapaz jovem, que escolheu como prêmio o caneco de um litro para beber no próprio restaurante.
Desde que foi inaugurado, em 2022, o Biergarten Pomerânia se transformou em um destino turístico local. Ocupa um casarão histórico, a Residência Passold, que foi reformada, mas manteve todos os atributos originais, do chão de madeira às janelas. Em três anos, já cresceu, ocupando imóveis vizinhos. Recebe em média 300 pessoas por dia. Nos dias de maior movimento, no entanto, o número de clientes diários passa de mil.

A área de lazer, com espaço para crianças, música ao vivo, mesas na área externa e a competição do caneco, são parte de seu apelo. Mas o grande chamariz é a cozinha, comandada pelo chef alemão radicado no Brasil Heiko Grabolle. O cozinheiro cuida do menu do Biergarten há dois anos e meio, mas tem vasta experiência. Está no país desde 2003. Já cuidou da cozinha de grandes cruzeiros que faziam rotas na América Latina, mas acabou se instalando em Santa Catarina e comandou o Restaurante Senac Blumengarten, em Blumenau, por três anos.
“Quando cheguei aqui, quis trazer o conceito dos biergartens alemães, que são mais modernos e informais, menos tradicionais”, diz o chef. Tanto a decoração quanto o menu representam essa versão mais moderna e descontraída da cozinha alemã. O cardápio ficou mais enxuto e focado. “Deixei menos opções de vinho, por exemplo, para priorizar a cerveja e os coquetéis”, conta Grabolle. As comidas refletem a experiência do chef.
As receitas, no entanto, precisaram ser adaptadas, conta o chef. Algumas, por exemplo, ficaram menos apimentadas que as originais alemãs, já que o público brasileiro tem um paladar diferente. Ele também instituiu um sistema de preparo para agilizar os pedidos. A montagem é mais simples, com menos elementos. E todo o preparo começa em outra cozinha e é só finalizado no restaurante. “Temos esse olhar de gestão para otimizar processos”, conta o chef, enquanto mostra a cozinha. “Estamos sempre olhando para os pratos que saem mais, aqueles que saem menos, quais estão no padrão de qualidade que queremos entregar e quais ainda precisam de ajustes”, afirma. O chef conta ainda que 80% de todos os insumos vêm de produtores da região. “Tentamos comprar de parceiros localizados a até 50 quilômetros de distância do restaurante”, diz.

Tudo é gostoso e bem feito, das pizzas compridas conhecidas como Flammkuchen às salsichas e o tradicional Hackepeter, bolo de carne crua e temperada, servido com pão ou fritas. Mas há destaques. Entre os pratos principais, vale a pena pedir o Einsbein, joelho de porco que passa por sete tipos de cocção, que começa com a carne fresca, fornecida por um parceiro local, e que passa por diferentes temperaturas até ser finalizado na cozinha do restaurante. É acompanhado por spatzle, a massa caseira típica do sul da Alemanha, e chucrute. E a sobremesa imperdível é o Apfelstrudel, preparado com massa fina recheada com um purê de maçã cuja receita foi criada pelo próprio chef Grabolle, e que chega à mesa acompanhado de sorvete. Normalmente, o sabor escolhido é baunilha, mas vale a pena pedir para provar o sorvete de Spekuloos, nome dado a um típico biscoito com especiarias.
Além disso, todo o chope servido no restaurante é produzido pela Cervejaria Pomerânia. Localizada na cidade, é aberta a visitação. O mestre cervejeiro mostra o espaço – pequeno, já que se trata de uma cervejaria artesanal -, explica como são feitos os diferentes estilos, caso da pilsen, leve e refrescante, ou da Braunbier, um estilo raro, originário da Alemanha do século 18. É possível provar algumas cervejas direto do tanque, dependendo do que estiver sendo produzido no momento da visita, ou comprar garrafas para levar para casa. Outro destaque é a Rauchbier, estilo de Bamberg em que maltes defumados são usados na receita.

Além de cuidar do Biergarten Pomerânia, o chef Heiko Grabolle cuida ainda do Pommitz, especializado em batatas fritas, que fica no Alles Park, parque de diversão de Pomerode com neve artificial durante todo o ano.
A partir desta quarta-feira, 14, até o dia 25, o Biergarten também deve receber ainda mais visitantes por conta da realização da 41ª Festa Pomerana. O evento anual, que ocupa o Parque Municipal de Eventos de Pomerode, valoriza as tradições alemãs, das roupas e músicas à comida e à cerveja. São esperados 15 mil visitantes no restaurante.