O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem externalizado de forma cada vez mais frequente seu interesse em colocar a ilha da Groenlândia sob controle de Washington. Nos últimos dias, o que era visto como simples bravata ganhou novo peso após a operação militar americana na Venezuela, que capturou o ditador Nicolás Maduro. No momento de alta tensão, moradores do território ártico pertencente à Dinamarca têm exposto suas preocupações em relação às declarações do republicano.
“Ele está novamente dizendo ‘nós vamos tomar vocês’, ‘nós vamos comprar vocês’, ‘nós vamos usar as forças armadas’”, disse uma idosa groenlandesa em entrevista à emissora britânica BBC antes de disparar de forma espontânea: “Ele é louco!”
As intenções de Trump vêm à tona em meio à disputa em torno do Círculo Ártico pelas superpotências globais, uma vez que a região é rica em terras raras, gás e petróleo, além de abrigar importantes rotas marítimas, cada vez mais acessíveis devido ao derretimento do gelo. No entanto, a população da Groenlândia, que tem um histórico de luta contra a presença estrangeira, deseja somente ser deixada em paz.
“Sempre vivemos uma vida tranquila e pacífica. Claro, tivemos a colonização da Dinamarca, que causou traumas em muitas pessoas, mas acho que só queremos ser deixados em paz”, conta uma moradora da capital do território, Nuuk. “Estamos muito cansados disso.”
Para a ex-parlamentar groenlandesa Tillie Martinussen, os reiterados comentários de Trump são desrespeitosos e suas sugestões de que a ilha poderia ser invadida coloca os habitantes locais em posição análoga à de “trabalhadores do sexo”. “Isso é ultrajante, insano e assustador para alguns, embora eu ache que, na maioria das vezes, só ficamos com raiva”, disse ela à emissora canadense CBC News.
Embora a Casa Branca defenda que o interesse dos Estados Unidos na ilha é uma questão de defesa nacional, a ex-parlamentar rejeita totalmente a ideia, afirmando que Washington “pode fazer quase tudo o que quiser em termos de segurança, desde que estejamos negociando sobre isso”. Desde 1951, um acordo entre americanos e dinamarqueses estabeleceu uma base espacial operada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos no gelado território para estabelecer vigilância espacial.
“Acho que (Trump) deveria simplesmente dizer que quer o petróleo, que quer os minerais de terras raras”, aponta Martinussen.
A prefeita de Nuuk, Avaaraq Olsen, fez questão de destacar à CBC que os 57 mil moradores da ilha repudiam qualquer plano americano para uma tomada de poder. “Esse ainda é o estado dos groenlandeses. Achamos muito desrespeitoso e ofensivo sermos envolvidos novamente nisso porque já expressamos nossa opinião”, disse ela, antes de acrescentar: “Somos tratados como um item para comprar, e realmente queremos nos afastar disso”.
Ambições territoriais
O interesse de Trump pela ilha é conhecido desde seu primeiro mandato. No entanto, a preocupação sobre uma possível ação americana se tornou maior após a operação militar americana na Venezuela. A bordo do Air Force One no domingo 4, o mandatário reiterou: “Precisamos da Groenlândia para garantir a segurança nacional, e a Dinamarca não tem capacidade de protegê-la”. A declaração chocou Copenhague e inúmeros aliados americanos de longa data na Europa.
Na terça-feira 6, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que a Groenlândia é uma prioridade para Washington e declarou que empregar as forças armadas é “sempre uma opção”. Um dia depois, entretanto, a porta-voz disse a repórteres que a “primeira opção do presidente sempre foi a diplomacia”.
Para os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), qualquer ataque americano ao território pertencente à Dinamarca representaria o fim da aliança militar.