Alguma coisa está fora de ordem quando um banco decide, pela manhã, anunciar que está “sólido, estável e operando normalmente”, e, à tarde, resolve reafirmar que “permanece sólido, operando normalmente”. Aconteceu com o Banco de Brasília, nesta segunda-feira (19/1).
O BRB tem 60 anos e pertence ao grupo de bancos públicos regionais sobreviventes dos terremotos financeiros no final da década de 1990. É controlado pelo governo do Distrito Federal, dono de 53,7% do capital. Na administração Ibaneis Rocha, virtual candidato ao Senado pelo MDB, foi levado a transações obscuras com o recém-liquidado banco Master. Chegou a negociar a compra do Master, mas a operação acabou vetada pelo Banco Central.
No papel, o BRB é uma casa bancária de médio porte com ativos de 74 bilhões de reais, pouco mais que o valor das emendas parlamentares ao orçamento da União previstas para ano.
Na vida real, é um banco estatal com um rombo de dimensões ainda desconhecidas, resultante das estranhas operações financeiras feitas com o Master. Na manhã de ontem, o BRB se preocupou em comunicar à praça que se sente “sólido, estável” e está “operando normalmente, sem qualquer risco de intervenção”.
“Intervenção”, palavra-tabu no setor financeiro, é raridade em nota oficial de instituição financeira, pública ou privada. Costuma ser usada em avisos da autoridade monetária, o Banco Central, quando a interferência é consumada.
O BRB esgrimiu com a arma de dissuasão típica de um banco público: “Caso seja necessário, dispõe de plano para recomposição de capital”.
Acrescentou: “Eventuais aportes do acionista controlador” — o governo local — “não retiram recursos já previstos no orçamento para políticas públicas”. Esse trecho da mensagem, aparentemente, foi endereçado à rede de políticos com interesses eleitorais no orçamento do Distrito Federal, que tem cerca de 40% do dinheiro garantido pela União.
Ao entardecer, o banco voltou ao ataque, dessa vez com um “comunicado ao mercado a respeito de suposta insuficiência patrimonial”.
Anunciou que “possui plena capacidade de recompor seu capital”. Isso, claro, “caso venham a ser confirmados eventuais prejuízos decorrentes de determinadas operações”.
Não deu pistas sobre o tamanho das possíveis perdas nem indicou o que seriam essas “determinadas operações”.
Socorreu-se num advérbio: “Ademais, destaca que dispõe de plano de capital estruturado para cenários de estresse, o qual não foi acionado até o momento.”
E assim o banco estatal terminou o expediente reafirmando a sua “solidez financeira”.
Fez isso pela terceira vez em menos de uma semana. Quarta-feira passada (14/1) já havia avisado, em nota pública, que “permanece sólido, operando normalmente e garantindo a oferta completa de serviços financeiros”.
É provável que o BRB continue repetindo essas pílulas de otimismo sobre a própria solvência. Talvez funcione. Hoje, no entanto, é impossível prever se, quando e como conseguirá escapar da situação desastrosa em que se meteu, enredado na teia política que blindou o banco Master numa fraude bilionária.